DO OC – Nesta terça-feira (20) o reinado de Donald J. Trump como autocrata eleito dos Estados Unidos completa um ano. Apenas um ano. Nesse período, Trump e o movimento fascista MAGA aceleraram a derrocada da democracia no país, com direito a milícias, campos de concentração, execuções extrajudiciais, perseguição a adversários políticos e mordaça à imprensa (disfarçada de lawfare).
Mas Trump também produziu nesses 12 meses o maior retrocesso para o esforço global contra as mudanças climáticas desde 1992, quando a Convenção do Clima da ONU foi assinada. Além de efetivamente eliminar a governança climática federal e adotar uma série de medidas no sentido de aumentar as emissões dos Estados Unidos – condenando à morte a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento da Terra a 1,5oC –, Trump fez bullying com países que tentavam cortar emissões e inviabilizou um acordo sobre navegação e a chance de sucesso da COP30 (e das demais).
Cereja do bolo, na alvorada de 2026 Trump abandonou a Convenção do Clima e o IPCC, movimentos mais irreversíveis que a saída do Acordo de Paris. Além de ter tomado para si as maiores reservas de petróleo do mundo, as da Venezuela. Para ilustrar esse ano de descalabro, o Observatório do Clima convidou o cartunista Arnaldo Branco.
Relembre abaixo o que o americano fez com o clima enquanto a imprensa local discutia se dava para chamá-lo de “ditador” ou não.
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- Retira os Estados Unidos do Acordo de Paris
- Extingue o departamento de clima da Secretaria de Estado
Trump publicou um tsunami de decretos no seu primeiro dia de mandato, em 20 de janeiro. Vários deles buscavam desfazer iniciativas ambientais e climáticas dos governos Biden e Obama, como a expansão da energia eólica e o mandato para veículos elétricos. Numa tacada só, oito decretos de Biden sobre energia e clima foram revogados. Além disso, Trump cumpriu sua promessa de retirar novamente os EUA do Acordo de Paris e também eliminou a diplomacia climática do governo.
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Fevereiro
- Assina decreto para produzir mais petróleo e gás
- Demite em massa funcionários da agência de oceanos e atmosfera (Noaa) e da agência de gerenciamento de emergências (Fema)
Trump estabeleceu em seu segundo mês de mandato o Conselho de Domínio Energético, para garantir que os EUA seguissem sendo o maior produtor de petróleo do mundo. Para isso, facilitou ainda mais a exploração de óleo e gás, sob o lema “drill, baby, drill!”, popularizado pela ex-governadora do Alasca Sarah Palin. Ao mesmo tempo, o Departamento de Eficiência Governamental, do sociopata Elon Musk, aplicou cortes a áreas do governo que achava inúteis, demitindo 600 funcionários da Noaa, agência de monitoramento do clima, e reduzindo a Fema, organização de resposta a desastres naturais. Cientistas americanos também foram proibidos de comparecer a uma reunião do IPCC, o painel do clima da ONU.
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Março
- Faz a Agência de Proteção Ambiental (EPA) derrubar 31 regulamentos
Na maior onda de desregulamentação de sua história, a Agência de Proteção Ambiental, o equivalente ao Ibama dos EUA, anunciou que derrubaria 31 regulações sobre poluição, licenciamento ambiental e outros. Segundo Lee Zeldin, chefe da EPA nomeado por Trump, a agência estava “cravando uma adaga diretamente no coração dessa religião que é a mudança climática”.

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Abril
- Interrompe relatório sobre impactos do clima nos EUA
Dezenas de cientistas que produziam o National Climate Assessment, a avaliação completa dos impactos da mudança do clima nos EUA, foram demitidos de uma vez no dia 28 de abril, impedindo que o estudo fosse concluído. O movimento seguia a tendência iniciada em janeiro de eliminar qualquer menção à mudança climática em qualquer site oficial do governo. Em julho, a página do National Climate Assessment saiu do ar. Vários esforços da sociedade civil e da academia hoje tentam recuperar as informações deletadas ou escondidas.
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Maio
- Anuncia que vai parar de rastrear prejuízo de desastres climáticos
A Noaa, devidamente depopulada após a passagem da tesoura de Elon Musk, anunciou que pararia de rastrear desastres climáticos que causam prejuízo maior que US$ 1 bilhão no país. A informação era importante para defesa civil e companhias de seguro.

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Junho
- Propõe acabar com os limites de emissões de gases de efeito estufa de usinas termelétricas
Em mais uma regulação da era Biden desfeita, Lee Zeldin, da EPA, diz que derrubará limites às emissões de gases-estufa de termelétricas a óleo, gás e carvão. De quebra, outros elementos como mercúrio, um metal pesado altamente tóxico contido no carvão mineral, poderiam ser emitidos à vontade. Tudo para acabar com o que Zeldin chamou de “a seita da mudança climática”.
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Julho
- Publica relatório escrito por negacionistas para minimizar os impactos das mudanças climáticas
- Entuba US$ 750 bilhões em gás fóssil na Europa
O secretário de energia, Chris Wright (apelidado pelos ambientalistas de Chris Wrong), mandou fazer às pressas e publicar um “relatório” para “revisar” os impactos das emissões de gases de efeito estufa no país e dizer que, na verdade, poluição climática é uma coisa boa. Os cinco autores do documento são negacionistas climáticos conhecidos. No mesmo mês, Trump fechou um acordo com a Comissão Europeia para retirar as tarifas de 50% impostas ao bloco em troca da promessa da UE de comprar US$ 750 bilhões em gás fóssil americano.
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Agosto
- Tenta derrubar decisão que qualifica CO2 como poluente
No dia 1o de agosto, a EPA trumpista propôs rescindir o chamado Endangerment Finding, uma resolução da era Obama que considerava o gás carbônico um poluente do ar. A decisão de 2009 era a base para toda a ação climática no país, já que, pela lei americana, poluentes ameaçam a saúde e os ecossistemas e, portanto, precisam ser regulados.
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Setembro
- Diz que a mudança climática é uma farsa
Num discurso delirante de quase uma hora no qual disse ter acabado com oito guerras e reclamou das escadas rolantes da ONU, Trump chamou a mudança climática de “con job” (“fraude”) e disse que usinas eólicas eram além de tudo feias. Nesse mesmo discurso Trump declarou ter tido uma “química excelente” com “o líder do Brasil”.
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Outubro
- Aprova perfuração de gás e petróleo no Alasca
- Impede acordo internacional para redução de emissões da navegação
Depois de décadas de resistência de ambientalistas, que evitaram que até o petroleiro George W. Bush desse esse passo, Trump autorizou a perfuração de petróleo no Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Alasca, um santuário para a biodiversdade do Ártico. Era uma das grandes áreas selvagens intocadas dos EUA. No mesmo mês, o Departamento de Estado fez bullying com dezenas de países que negociavam em Londres um acordo internacional para reduzir as emissões de CO2 de navios. Ameaçando impor tarifas punitivas, o governo americano conseguiu barrar o acordo.

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Novembro
- Não envia delegação de alto nível para a COP30 em Belém
Foi com discreto alívio que a diplomacia brasileira recebeu a notícia de que os EUA não enviariam delegação para a COP30, a conferência do clima de Belém. Os americanos também estiveram ausentes de todas as reuniões multilaterais do ano sobre o tema. O consenso entre negociadores era que, se viessem à COP, seria para botar fogo no parquinho e bloquear a conferência. Mas nem precisou: sem os EUA, é impossível qualquer discussão sobre financiamento climático prosperar. E Arábia Saudita e Rússia não precisaram dos amigos americanos para impedir qualquer menção a combustíveis fósseis no pacote de decisões de Belém. A COP fracassou em seus resultados formais.
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Janeiro
- Abandona a Convenção do clima e o IPCC
- Ataca a Venezuela para dominar indústria do petróleo
Trump abriu 2026 em grande estilo: no dia 3, bombardeou a Venezuela e sequestrou o colega autocrata Nicolás Maduro, levando-o a Nova York sob acusação de “narcoterrorismo” (a mesma usada para executar extrajudicialmente dezenas de pessoas no Mar do Caribe em 2025). Quando viu que não colava, Trump admitiu que seu interesse era mesmo controlar as reservas venezuelanas de petróleo, as maiores do planeta. Quatro dias depois, anunciou que os EUA sairiam de 66 organizações multilaterais, inclusive o IPCC e a Convenção do Clima da ONU. Este último movimento tende a ter repercussões mais duradouras que a saída do Acordo de Paris, já que a adesão americana a tratados internacionais vinculantes (caso da Convenção, assinada em 1992 por George Bush pai) depende de ratificação da maioria do Senado, o que é improvável de acontecer.
