DO OC – Donald Trump conseguiu. Depois de: (1) invadir a Venezuela; (2) sequestrar o autocrata Nicolás Maduro; (3) surrupiar navios petroleiros no Caribe; (4) inventar taxas abusivas contra a China e o Brasil; (5) derrubar taxas abusivas contra a China e o Brasil; (6) aventar uma invasão ao Irã; (7) propor a anexação do Canadá; (8) estipular um preço pela Groenlândia; (9) humilhar vários mandatários da Europa; e (10) ganhar um inédito Nobel de segunda mão, o mundo já não se preocupa tanto com a mudança climática. Afinal de contas, antes que a humanidade acabe por conta do clima, ela pode acabar por conta de Trump.

É mais ou menos isso que conclui o Relatório de Riscos Globais de 2026, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, cujo encontro anual, em Davos, ocorre nesta semana, entre os dias 19 e 23 de janeiro. O relatório analisa os riscos que são tidos como os mais graves agora, em dois e em dez anos. Nos cenários mais urgentes – os de 2026 e 2028 – as mudanças do clima não aparecem como problema principal – e isso num momento em que a temperatura global chega perto de 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais. As pessoas estão mais preocupadas com a escalada de conflitos geoeconômicos e militares. É o fator Trump – mesmo que Trump não seja mencionado no relatório.

A Pesquisa Global de Percepção de Riscos deste ano foi feita a partir de informações de mais de 1.300 especialistas. Ela aponta o óbvio: que o multilateralismo está em crise, em razão de medidas como o aumento do protecionismo ou do desrespeito ao Estado de Direito. O confronto geoeconômico, que figurava em terceiro lugar no ranking das preocupações no último ano, agora aparece no topo para 18% das pessoas. O segundo risco mais urgente, o de conflitos armados entre Estados, recebeu 14% das respostas. Só em seguida aparecem as mudanças do clima, com 8%.

O relatório mostra que os riscos climáticos e ambientais ainda ocupam o topo do ranking quando o horizonte se estende para daqui a dez anos. Menos mal. Mas, por força da desordem geopolítica, o meio ambiente parece ter deixado de ser uma preocupação a curto prazo. “Olhando para os próximos dois anos, a maioria dos riscos ambientais caiu no ranking”, diz o estudo, apontando que eventos climáticos extremos passaram do 2º para o 4º lugar e a poluição do 6º para o 9º lugar no cenário para 2028. Perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas também perderam posições.

“À medida que as preocupações de curto prazo se sobrepõem aos objetivos globais compartilhados de longo prazo, os riscos ambientais estão sendo rebaixados no horizonte de dois anos, com a maioria caindo em classificação e apresentando pontuações reduzidas, mesmo que continuem sendo preocupações importantes no horizonte de dez anos”, escreve, no relatório, Saadia Zahidi, diretora-executiva do Fórum Econômico Mundial. Ou seja: a preocupação ambiental ainda existe, mas hoje só amanhã.

Trajetória de clima no relatório

No conjunto de riscos citados desde 2007, a questão climática apareceu pela primeira vez em 2011 e, desde então, nunca deixou de ser mencionada. Na categoria de “riscos globais em termos de probabilidade”, o “clima extremo” ocupou a segunda posição entre 2014 e 2016 e permaneceu no topo nos quatro anos seguintes. Já na lista de “riscos globais em termos de impacto”, a “falha na ação climática” oscilou entre a quinta, segunda, quarta e primeira posições entre 2013 e 2020.

No relatório Riscos Globais Extremos 2021, os “eventos climáticos extremos” apareceram como risco de curto prazo (2 anos), atrás apenas de doenças infecciosas e crises de subsistência — o mundo enfrentava a pandemia de Covid-19. Em 2022, no curto prazo, “clima extremo” e “fracasso da ação climática” ocuparam a primeira e a terceira posições, respectivamente. No horizonte de dez anos, ficaram nos dois primeiros lugares.

A tendência se manteve no relatório seguinte, com os riscos climáticos dominando o longo prazo: incapacidade de mitigar as mudanças climáticas (1ª posição), falha na adaptação (2ª), eventos climáticos extremos (3ª) e perda de biodiversidade e colapso dos ecossistemas (4ª). Já no relatório Riscos Globais 2024, Zahidi resumiu o cenário como a convivência de duas crises perigosas: a climática e a dos conflitos.