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Enchentes, mortes e desalojados: o “novo normal” na Austrália

  Crise climática está intensificando eventos extremos como as chuvas torrenciais que atingem a costa leste do país desde o último final de semana

05.07.2022 - Atualizado 05.07.2022 às 16:28 |

DO OC – Pela terceira vez somente neste ano, milhares de australianos estão sendo removidos de suas casas e correndo risco de vida por causa das chuvas torrenciais e grandes inundações que assolam a costa leste do país. Desde o início do ano, mais de 20 pessoas morreram, dezenas de estradas foram bloqueadas, centenas de pessoas resgatadas e milhares desalojadas. Tudo isso pouco mais de um ano depois de a região ter sofrido a maior enchente em mais de meio século, que ocorreu em março de 2021.

As imagens de casas submersas e moradores tentando se salvar pelas ruas de Sydney chocam, mas este tende a ser o “novo normal” de quem vive por lá. Desde o início do último episódio de chuvas intensas, que começou no sábado (2/7), três grandes rios transbordaram, 32 mil pessoas foram orientadas a deixar suas casas e pelo menos uma já morreu.

Historicamente, eventos extremos como esses – e também os incêndios florestais que assolaram a região entre 2019 e 2020 – costumavam ocorrer a cada 50 a 100 anos. Só que, em um mundo cada vez mais quente, eles estão se tornando mais comuns e intensos. Especialistas atribuem as repetidas tempestades a três fatores principais: o primeiro é que um oceano mais quente provoca o aumento na quantidade de umidade que se move do mar para a atmosfera, fenômeno que amplifica a intensidade de alguns fenômenos, como ondas de calor e chuvas torrenciais. Em janeiro deste ano, um estudo publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences mostrou que a temperatura no oceano tem aumentado consecutivamente nos últimos três anos, sendo 2021 o mais quente já registrado.

O segundo diz respeito à temporada de La Niña, evento que altera os padrões climáticos em escala global, e que está ocorrendo pelo segundo ano consecutivo. A atual La Niña teve início em outubro passado e veio na sequência de uma La Niña que circulou no final de 2020, aumentando a probabilidade de chuva, ciclones e temperaturas diurnas mais frias em algumas regiões do planeta, como no continente australiano, enquanto ampliava as condições de seca em outros, como na América do Norte.

De acordo com secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Petteri Taalas, os efeitos da ação humana no clima estão amplificando os impactos de eventos naturais como El Niño e La Niña e influenciando, cada vez mais, os padrões climáticos. Não à toa, climatologistas estão alertando que há grandes chances de ocorrer em 2023 um terceiro evento La Niña consecutivo. Desde 1950, em apenas duas outras ocasiões – entre 1973 e 1976 e de 1998 a 2001 – o fenômeno foi registrado três vezes seguidas.

O terceiro fator que contribuiu para os recentes desastres é a falta de preparo em lidar com esses eventos climáticos extremos. Grande parte das cidades atingidas possui rios, está localizada em zonas costeiras e em baixas altitudes, o que as deixam mais suscetíveis a esse tipo de tragédia. O governo até possui algumas estratégias de adaptação, mas elas claramente não estão em sintonia com a rapidez e intensidade que a crise climática está afetando o país – algo que, por sinal, se repete em praticamente todo o planeta. Um relatório publicado em junho deste ano pelo Australian Climate Council mostrou que o país está inclusive enfrentando uma “crise de segurabilidade”, com mais de meio milhão de propriedades a caminho de se tornarem inelegíveis para serem cobertas por seguro até 2030 pelo “alto e crescente risco de enchentes”.

A mudança recente no governo australiano, que há poucos meses trocou o negacionista climátco Scott Morrison por Anthony Albanese, eleito pelo Partido Trabalhista com o compromisso de aumentar a ambição climática, talvez represente também uma mudança na percepção de risco do país e, assim, em uma melhora nas estratégias de adaptação à crise climática. (JAQUELINE SORDI)

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