DO OC – O aumento médio das temperaturas globais nos últimos três anos (2023–2025) encostou no limite de 1,5°C em comparação ao período pré-industrial (1850–1900), mostram dados divulgados nesta quarta-feira (14) pelo Copernicus, serviço climático da União Europeia, e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Na análise do Copernicus, a média do período de três anos superou 1,5°C pela primeira vez. Já a OMM aponta que a média entre 2023 e 2025 foi de 1,48°C, com margem de incerteza de mais ou menos 0,13°C. Ambas as instituições destacam que os últimos 11 anos, de 2015 a 2025, foram os mais quentes já registrados.

“Os principais conjuntos de dados utilizam metodologias ligeiramente diferentes e, portanto, apresentam valores de temperatura com pequenas variações e até classificações anuais distintas”, explica a OMM.

Segundo o Copernicus, com base na taxa atual de aquecimento, o limite de 1,5°C para o aquecimento global a longo prazo, estabelecido pelo Acordo de Paris, poderá ser atingido até o final desta década. Isso ocorrerá mais de uma década antes do previsto na época da assinatura do acordo, em 2015.

Para Carlo Buontempo, diretor de mudanças climáticas do Copernicus, dificilmente o planeta escapará dessa ultrapassagem. “A escolha que temos agora é como gerenciar da melhor forma essa inevitável ultrapassagem e suas consequências para as sociedades e os sistemas naturais”, afirmou.

Os riscos para o planeta aumentam a cada décimo de grau adicional de aquecimento, o que exige medidas drásticas para diminuir as emissões de gases de efeito estufa.

2025 esteve entre os três mais quentes

De acordo com o Copernicus, em 2025 a temperatura global do ar ficou 1,47°C acima do nível pré-industrial — apenas 0,01°C abaixo de 2023 e 0,13°C menos que em 2024, o ano mais quente já registrado. A OMM aponta um valor um pouco menor, de 1,44°C, também com margem de incerteza de ±0,13°C.

A análise consolidada da OMM considera oito conjuntos de dados. Dois deles classificaram 2025 como o segundo ano mais quente em uma série histórica iniciada em 1850, enquanto os outros seis o apontaram como o terceiro mais quente.

“O ano de 2025 começou e terminou com um fenômeno La Niña de resfriamento, e ainda assim foi um dos anos mais quentes já registrados globalmente, devido ao acúmulo de gases de efeito estufa que retêm calor em nossa atmosfera”, diz Celeste Saulo, secretária-geral da OMM. 

As duas organizações ressaltam que o aumento da temperatura contribuiu para a intensificação de eventos climáticos extremos em 2025. “Isso reforça a necessidade vital de sistemas de alerta precoce”, completa Saulo.

Segundo o Copernicus, metade da área terrestre global registrou mais dias do que a média com estresse térmico intenso, condição que representa risco de morte para seres humanos. As altas temperaturas, combinadas com períodos de seca e ventos fortes, contribuíram para a intensificação de incêndios florestais, que liberam mais gases de efeito estufa e poluem o ar, agravando problemas de saúde. Espanha, Canadá e o sul da Califórnia estão entre as regiões que enfrentaram grandes queimadas.

Ondas de calor recorde e tempestades severas também foram registradas em países da Europa, da Ásia e da América do Norte.

O relatório anual de eventos extremos da Rede Mundial de Atribuição (WWA, na sigla em inglês), publicado em 29 de dezembro, também chama a atenção para a situação na África. Em fevereiro do ano passado, após dezenas de crianças sofrerem insolação e desmaiarem em Juba, capital do Sudão do Sul, as escolas foram fechadas por duas semanas em todo o país. Na cidade, um terço da população não tem acesso à água, e apenas 1% da área urbana oferece espaços verdes e sombra.

Para a WWA, os eventos extremos de 2025 deixam claro que é necessário investir em medidas de adaptação. “Muitas mortes e outros impactos poderiam ser evitados com ações oportunas”, afirma o relatório.

No entanto, a rede ressalta que, em casos de furacões intensos, a capacidade de adaptação é limitada. “Quando uma tempestade extrema [como o furacão Melissa] atinge pequenas ilhas, como a Jamaica e outras nações caribenhas, mesmo níveis relativamente altos de preparação não evitam perdas e danos extremos. Isso mostra que a adaptação, por si só, não é suficiente. Reduções rápidas de emissões continuam sendo essenciais”, diz o documento.

Oceano ferve

De acordo com dados do Copernicus, a temperatura média da superfície do mar em 2025 foi de 20,73°C, a terceira mais alta já registrada, atrás apenas de 2024 e 2023.

Um artigo publicado em 9 de janeiro na revista Advances in Atmospheric Sciences destaca o conteúdo de calor oceânico (CCO), medida da energia térmica que considera o aquecimento das camadas mais profundas do oceano.

Os resultados indicam que, globalmente, o oceano atingiu o maior valor de CCO já observado. Segundo os cálculos, o oceano ganhou aproximadamente 23 zetajoules (Zj) de calor em relação a 2024. “Isso equivale a cerca de 200 vezes a geração total de eletricidade mundial em 2024”, informa a OMM, que citou o estudo na divulgação desta quarta-feira.

Regionalmente, cerca de 33% da área oceânica global ficou entre as três condições mais quentes da série histórica (1958–2025), enquanto aproximadamente 57% esteve entre as cinco mais quentes. Entre as regiões afetadas estão o Atlântico tropical e o Atlântico Sul, o Mar Mediterrâneo, o norte do Oceano Índico e os oceanos Austrais, o que confirma um aquecimento generalizado dos mares.

Os autores destacam que o aquecimento dos oceanos é uma resposta direta ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa e às recentes reduções nos aerossóis de sulfato. Cerca de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global é armazenado nos oceanos.

Eles ainda lembram que esse aquecimento provoca impactos profundos no sistema terrestre.

“O aumento do CCO permanece como o principal fator de elevação do nível global do mar por meio da expansão térmica, intensifica as ondas de calor marinhas e agrava eventos climáticos extremos ao aumentar as trocas de calor e umidade com a atmosfera”, explicam. É em oceanos mais quentes que se formam furacões mais intensos.

A conclusão do estudo é pouco otimista. “A longo prazo, em consonância com as projeções dos modelos climáticos mais recentes, espera-se que o CCO global continue a bater recordes até que as emissões líquidas zero de gases de efeito estufa sejam alcançadas”, afirmam os autores.

Gelo marinho segue sob pressão

O Copernicus indica que, em fevereiro de 2025, a cobertura de gelo marinho nos dois polos caiu para o menor valor desde o início das observações por satélite, no final da década de 1970.

Essas regiões também têm sido fortemente impactadas pelo aumento da temperatura do ar. A Antártida registrou a temperatura anual mais alta de sua série histórica, enquanto o Ártico teve a segunda mais elevada.