No clássico A Montanha Mágica, de Thomas Mann, o jovem engenheiro alemão Hans Castorp vai a Davos, na Suíça, visitar um primo doente num sanatório e se descobre numa Europa transformada, em declínio e apanhada entre o humanismo e o totalitarismo, às portas da Primeira Guerra Mundial.

Líderes mundiais que compareceram nesta semana a Davos para o Fórum Econômico Mundial podem ter se sentido como Hans Castorp. O fim da ordem mundial do pós-guerra, que há anos ronda o continente onde nasceu a democracia liberal, foi capturado sem meias-palavras pelo premiê do Canadá, Mark Carney, que falou em “ruptura” um dia antes de Donald Trump discursar na cidade-resort suíça. Com os EUA ameaçando tomar território (a Groenlândia) de aliados europeus e implodir a Otan, isso duas semanas depois de sequestrar o ditador da Venezuela com o objetivo declarado de roubar o petróleo do país, os europeus parecem ter finalmente entendido que a política de contemporizar com Trump não funciona mais.

O que sairá desse sanatório, no qual as “potências médias”, nas palavras de Carney, precisam se unir para fazer frente a três superpotências inclinadas a mandar as regras para o vinagre (e, no caso americano, a ONU também), ainda está para ser definido. Mas Davos em 2026 foi o funeral de uma ficção confortável para as elites liberais brancas, a de um mundo no qual a integração econômica traria paz e prosperidade.

Uma das vítimas colaterais desse velório tende a ser o Acordo de Paris. A dinâmica vista na COP30, de uma Europa na retranca com o escorpião no bolso e os piores instintos de Rússia e Arábia Saudita livres para operar sem o contraponto americano, tende a se repetir nas negociações, travando qualquer avanço. Ao mesmo tempo, o olho gordo dos EUA sobre o Ártico após 40 anos de abandono estratégico da região indica que os impactos da mudança do clima sobre a zona polar já estão precificados – mesmo que, da boca para fora, Trump negue o aquecimento global, como você verá nesta edição da newsletter.

Feliz 2026, aperte o cinto e boa leitura.

A Groenlândia para os groenlandeses

O que a obsessão de Trump com a ilha revela sobre suas crenças na mudança do clima

Pelo menos por esta semana, parece que Donald Trump sossegou. Depois que os europeus enfim subiram o tom contra sua ameaça de tomar a Groenlândia a golpes de tarifaço, o autocrata dos EUA e seu puxa-saco da Otan, Mark Rutte, anunciaram um acordo pelo qual os americanos ganham o direito de fazer na ilha tudo o que eles já podiam fazer.

Trump diz que quer a Groenlândia por dois motivos: primeiro, por razões de “segurança” que ele não consegue explicar muito bem, e para as quais existe a Otan de qualquer maneira (sintomático que Vladimir Putin tenha apoiado discretamente a reivindicação americana da ilha). Segundo, para se apropriar dos minerais estratégicos groenlandeses, como as terras raras (como notou Arnaldo Branco, antigamente os colonizadores ao menos davam uma desculpa, como levar Cristo ou a democracia aos subjugados).

É difícil conciliar essas duas razões com o negacionismo climático professado por Trump. Afinal, se o Ártico hoje está se tornando visado por potências militares, é porque suas águas se tornaram mais navegáveis – obra e graça do aquecimento global, que ano a ano reduz a extensão do gelo marinho permanente e abre novas rotas, como as passagens Noroeste (pelo Canadá) e Nordeste (ou Rota Marítima do Norte, pela Rússia). O mesmo vale para minerais críticos, que servem para alimentar as indústrias que Trump chama de “fraudes” ou “feias”, como as de tecnologia energética renovável.

Ou seja, o desejo de Trump pela Groenlândia passa pelo reconhecimento tácito de que ela está derretendo e de que a causa desse derretimento tem implicações geopolíticas e geoeconômicas futuras profundas. Não dá para chamar Trump de negacionista climático, portanto; ele é algo muito pior e ainda sem nome.

Enquanto a Groenlândia permanece livre, aqui uma lista para quem quiser conhecê-la melhor.

Ele está só começando

Em 365 dias, Trump acelera retrocessos climáticos

Donald J. Trump completou, em 20 de janeiro, um ano de seu segundo mandato. Pode parecer pouco tempo, mas já foi o suficiente para adotar uma série de medidas que agravam a crise climática, além de promover retrocessos em outras áreas, como a intensificação da perseguição a imigrantes.

Ao longo desse período, Trump desmantelou a governança climática federal e adotou uma série de medidas que aumentam as emissões de gases de efeito estufa dos Estados Unidos. A lista de retrocessos é gigante. Para mostrar a dimensão do estrago, o Observatório do Clima compilou alguns episódios em uma linha do tempo que cobre os últimos 12 meses, ilustrada pelo cartunista Arnaldo Branco.

Agente laranja

Clima despenca entre riscos globais – graças a quem, hein?

Relatório de Riscos Globais 2026, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, mostra que, no curto prazo (dois anos), os riscos ambientais perderam espaço no ranking. Eventos climáticos extremos caíram da 2ª para a 4ª posição, enquanto a poluição recuou do 6º para o 9º lugar. A perda de biodiversidade e o colapso de ecossistemas também ficaram para trás. O rebaixamento ocorre em um momento em que o aumento da temperatura média global já encosta em 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais.

Os confrontos geopolíticos e os conflitos armados passaram a ocupar as primeiras posições da lista. Embora não seja citado nominalmente no relatório, o governo Donald Trump ajuda a explicar a queda dos riscos ambientais. Afinal, ele não para de mexer no tabuleiro global. Em discurso nesta quarta-feira (21) em Davos, o presidente voltou a afirmar que deseja a Groenlândia, exaltou a exploração de petróleo na Venezuela e declarou que o Canadá seria um dependente ingrato dos Estados Unidos – movimentos que reforçam a instabilidade global e empurram a crise climática para segundo plano.

Overshoot

Aquecimento encosta em 1,5°C por 3 anos seguidos

O aumento médio das temperaturas globais nos últimos três anos (2023-2025) ficou próximo do limite de 1,5°C em comparação ao período pré-industrial (1850-1900). Segundo o Copernicus, serviço climático da União Europeia, a média do período superou esse patamar pela primeira vez. Já a Organização Meteorológica Mundial (OMM) calculou uma média de 1,48°C, com margem de incerteza de mais ou menos 0,13°C. Ambas as instituições destacam que os últimos 11 anos, de 2015 a 2025, foram os mais quentes já registrados.

Mantendo o ritmo atual, o Copernicus avalia que o limite de longo prazo estabelecido pelo Acordo de Paris poderá ser atingido até o final desta década, mais de dez anos antes do que se projetava quando o acordo foi assinado, em 2015. Leia mais aqui.

PL da devastação

Ação no STF pede suspensão imediata do novo licenciamento

No fim do ano passado, o PSOL e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), com apoio do Observatório do Clima, acionaram o Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir a suspensão imediata dos efeitos das leis nº 15.190 e nº 15.300. A ação sustenta que os textos, sancionados recentemente, violam a Constituição e fragilizam o processo de licenciamento e a avaliação de impactos ambientais, comprometendo a segurança ambiental e jurídica no país. No dia 4 de janeiro, o ministro Alexandre de Moraes pediu mais informações à Presidência da República e ao Congresso Nacional.

La mala educación

Agro tenta influenciar até diretrizes educacionais

Os jornalistas Roberto Kaz e Rodrigo Vargas revelaram que a associação De Olho no Material Escolar, ligada ao setor do agronegócio, intensificou sua atuação na educação brasileira: depois de tentar influenciar o conteúdo dos livros didáticos, o grupo agora busca interferir nos planos de educação estaduais e municipais, propondo orientações sobre alfabetização, avaliação escolar e até bônus para professores. A reportagem foi publicada no Intercept Brasil e no Observatório do Clima.

Aqui se faz, aqui se paga

Nevasca monstra atinge metade da população dos EUA neste fim de semana

A maior nevasca em anos deve se abater sobre os Estados Unidos neste fim de semana, com previsão de 160 milhões de afetados em toda a região que vai de sudoeste a nordeste do país, segundo o New York Times. Infelizmente quem não fez também está pagando: a African Press Agency reporta que Moçambique já registrou 112 mortes por uma enchente que despejou 250 milímetros de chuva em 24 horas.

Na playlist

“Não há mais tempo pra novamente recomeçar/gastei a vida na tentativa de te agradar”. Na voz imortal de Angela Maria, a canção Não Há Mais Tempo, de Fernando Cezar e Britinho, poderia ser cantada hoje por Ursula von der Leyen a Donald Trump. Faz parte da trilha sonora de O Agente Secreto, nosso tetraindicado ao Oscar.

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