Nem a Disney, a série Jaspion, a franquia 007 e o herói cômico Austin Powers foram capazes de fabricar um vilão tão caricato. Mas o partido Republicano dos Estados Unidos foi. Depois de publicar um vídeo racista há uma semana, Donald Trump deu sua nova cartada: decretou que o gás carbônico não é mais nocivo à saúde e ao meio ambiente.

Sim, o governo Trump anunciou hoje que deixará de regular os gases de efeito estufa emitidos por carros e caminhões, que respondem por cerca de 20% das emissões dos Estados Unidos. A medida também afetará as emissões geradas por usinas de energia e refinarias de petróleo e gás, que respondem por mais 25% das emissões. O anúncio foi feito por Trump em conjunto com Lee Zeldin, chefe da EPA, a Agência de Proteção Ambiental (Zeldin está, para a EPA, como Ricardo Salles esteve para o Ministério do Meio Ambiente no Brasil de Bolsonaro).

Em termos práticos, Trump revogou o chamado endangerment finding, um parecer científico publicado em 2009, durante o governo Obama, que classificava o dióxido de carbono, o metano e outros quatro gases de efeito estufa como ameaça à saúde pública. Este parecer, surgido a partir de uma decisão de 2007 da Suprema Corte, foi adicionado à seção 202 do Clean Air Act, a lei federal que regula a qualidade do ar no país. Trump matou parte da lei cortando pela raiz científica.

“Estamos dando fim a uma política desastrosa da era Obama que prejudicou gravemente a indústria americana do automóvel e elevou enormemente os preços para os consumidores”, disse Trump. A fala foi complementada por Zeldin, o presidente da EPA: “Os fabricantes não serão mais sobrecarregados com a medição, a compilação e a comunicação de emissões de gases de efeito estufa de veículos e motores. E a transição forçada para veículos elétricos será eliminada.”

Em um cálculo tirado sabe-se lá de onde, a secretária de imprensa Karoline Levitt falou que o fim do controle de emissões há de gerar uma redução de US$2.400 no preço dos carros e uma uma economia total de US$1,3 trilhão ao consumidor. (Não custa lembrar que Elon Musk prometeu uma economia parecida, de até US$2 trilhões, em sua breve passagem pelo governo. Segundo o Financial Times, entregou um corte de US$12,4 bilhões.)

“Lee Zeldin anulou uma conclusão científica de longa data, com base em argumentos falaciosos e às custas da nossa saúde. Impor essa ação ilegal e destrutiva a mando de poluidores é um exemplo óbvio do que acontece quando uma administração corrupta e os interesses dos combustíveis fósseis têm permissão para agir sem controle”, declarou Gretchen Goldman, presidente da UCS, a União dos Cientistas Responsáveis dos Estados Unidos.

O argumento é reforçado por Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima: “Trump parte de uma mentira – a tal história sobre o preço do carro – para reverter a indústria do país a uma tecnologia pior. É quase como se ele publicasse um decreto para trazer de volta a carruagem.” O efeito, no entanto, não terá nada de pitoresco, já que o aumento na poluição há de gerar mais problemas de saúde e mais eventos climáticos extremos. “Ele está colocando em risco a população dos Estados Unidos e, em última instância, os próprios eleitores – o que não é de espantar vindo de um sujeito que demorou a comprar vacina para a Covid enquanto a população morria”, continuou Angelo. Por fim, lembrou que o endangerment finding foi publicado depois que a própria indústria americana já vinha encontrando formas mais eficientes de produzir energia, substituindo as emissões de termelétricas a carvão por gás. “Ele está revertendo um avanço tecnológico. Fica parecendo que é uma birra. E provavelmente é.”

Em resposta ao ato de Trump, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama escreveu, no X, que o endangerment finding “serviu de base para limites às emissões” e que, sem ele, “seremos menos seguros, menos saudáveis ​​e menos capazes de combater as alterações climáticas – tudo para que a indústria dos combustíveis fósseis possa ganhar ainda mais dinheiro.”