Donald Trump fez uma proposta que a Agência Internacional de Energia, a IEA, não conseguiu recusar. Em documento publicado hoje, após o fim da reunião bienal de ministros, a agência, algo como a FIFA da política energética, fez apenas uma menção, bastante discreta, às mudanças climáticas. De certa forma, é como se os maiores infectologistas do mundo produzissem, em meio à pandemia, um relatório em que a Covid-19 mal fosse citada.

O resultado da reunião contrasta com documentos prévios publicados pela própria IEA num período em que o mundo parecia estar livre de Trump. Em 2021, o relatório Net Zero by 2050 dava conta de que o mundo precisava passar por uma “transformação completa de como se produz, se transporta e se consome energia”, deixando claro que isso significava o fim a qualquer novo projeto de extração de combustíveis fósseis. Em reportagem publicada à época, o Observatório do Clima definiu o texto como o “mais importante da política econômica do século 21″. Cinco anos depois, os combustíveis fósseis não são sequer mencionados.

A guinada foi comandada pelo secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright (conhecido pelos ambientalistas americanos como Chris Wrong), um negacionista que doou U$ 230 mil (cerca de R$ 1,2 milhão) à campanha de Trump antes de ser nomeado ao cargo com a benção da indústria fóssil. 

Na reunião desta semana, ocorrida na sede da IEA, em Paris, Wright mentiu que o esforço econômico da Europa contra as mudanças climáticas resultou num desperdício de US$ 10 trilhões em uma década, o que teria enfraquecido o continente e deixado a população “mais vulnerável aos ataques da Rússia”. Wright criticou o foco da agência na transição energética e ameaçou retirar os EUA do grupo caso a IEA continue a insistir numa meta global de emissões zero até 2050. A ameaça surtiu efeito, já que 27% do orçamento anual da IEA vem dos Estados Unidos.

Como resultado, a Agência Internacional de Energia emitiu apenas um comunicado, o Chair Summary, documento mais fraco, que não precisa de unanimidade para ser publicado. “A grande maioria dos ministros salientou a importância da transição energética para combater as alterações climáticas e destacou a transição global para emissões líquidas zero, em linha com os resultados da COP28″, diz o texto, numa menção indireta à ausência dos Estados Unidos.

A ministra do Clima e Vice-Primeira-Ministra holandesa, Sophie Hermans, que presidiu a reunião, defendeu o resultado, argumentando que cada reunião bienal reflete sua “própria situação geopolítica”: “A última coisa que deveríamos fazer é comparar o resumo de hoje com o de dois anos atrás, porque muita coisa mudou”. 

Filiação do Brasil

A reunião também serviu para que a Agência Internacional de Energia estreitasse os laços com Brasil, Colômbia, Índia e Vietnã, países que estão em diferentes estágios de filiação. Hoje são 32 os países membros da IEA, cinco os associados (categoria da qual Brasil e Colômbia fazem parte) e onze os com pedido de adesão. O grupo completo responde por 80% do consumo global de energia e por 77% das emissões globais de CO2.

Surgida nos anos 1970 para regular os estoques de petróleo dos países ricos durante os choques do preço da commodity, a IEA aos poucos transformou-se num dos principais think-tanks de política energética do planeta. Todo ano ela publica o World Energy Outlook, o principal relatório sobre produção e consumo de energia no mundo. Nos últimos dez anos, sob liderança do economista turco Fatih Birol, a agência tem priorizado a mudança do clima e a transição energética, tendo desenvolvido cenários sobre como o mundo poderia alcançar a emissão líquida zero (net zero). Birol é presença constante em COPs do clima e esteve em Belém em novembro passado. Tem boa relação com o Brasil.

Segundo o site Politico Europe, a chantagem de Chris Wright na reunião ministerial foi bem-sucedida em derrubar a crise climática como prioridade da agência, ao menos por ora.