Indústria de combustíveis fósseis segue com presença forte na conferência do Clima (Pedro Bolle / USP Imagens)

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Bancos sustentam a indústria de combustíveis fósseis

Relatório anual destaca investimentos dos 60 maiores bancos privados do mundo. Maioria das instituições é, na propaganda, “comprometida” com a redução de emissões

18.04.2023 - Atualizado 28.04.2023 às 14:21 |

DO OC – Os 60 maiores bancos privados do mundo já despejaram US$ 5,5 trilhões nas mãos de empresas que exploram combustíveis fósseis desde que o Acordo de Paris foi firmado, em dezembro de 2015. Os financiamentos vão na contramão dos compromissos internacionais para redução de emissões de gases-estufa, medida indispensável para conter a crise climática. A análise é do relatório anual Banking on Climate Chaos — Investindo no Caos Climático, em tradução livre —, publicado na última quinta-feira (13/4). 

O relatório produzido pelas organizações Rainforest Action Network, BankTrack,  Indigenous Environmental Network, Oil Change International, Reclaim Finance, Sierra Club e Urgewald mostra que, do total, US$ 673 bilhões foram liberados pelos bancos em 2022, ano em que as petrolíferas obtiveram US$ 4 trilhões em lucros. Apesar de o investimento total ser o menor desde 2016, o valor segue alto e é determinante para a execução de diversos projetos de exploração de combustíveis fósseis. US$ 150 bilhões do montante do ano passado, por exemplo, ficaram concentrados nas mãos das 100 principais empresas do setor, como as estadunidenses TC Energy, Venture Global e ConocoPhillips, a francesa Total Energies e a saudita Saudi Aramco.

O levantamento mostra que, dos 60 bancos analisados, 49 assumiram compromissos de emissões líquidas zero. A maioria das instituições, no entanto, não conta com políticas rigorosas que excluam o financiamento para a expansão dos combustíveis fósseis. Os 49 bancos supostamente “comprometidos” com emissões-zero foram responsáveis por 81% do financiamento recebido pelas 100 gigantes do ramo ano passado. 

Uma exceção é o La Banque Postale, da França, que, em 2021, se comprometeu a parar de financiar o setor de petróleo e gás, anunciando sua retirada completa do setor até 2030. Após ter despejado, nos últimos anos, US$ 441 milhões nos bolsos de exploradores de combustíveis fósseis, no ano passado o banco francês não liberou nem US$ 1,00 para o setor. 

Por outro lado, há quem esteja ampliando o financiamento. É o caso do Royal Bank of Canada (RBC). No ano passado, o RBC investiu US$ 42,1 bilhões, um crescimento de 4,18% comparado a 2021, e ocupou o primeiro lugar no ranking de investidores do ano, posto até então ocupado pelo americano JP Morgan Chase. No acumulado de 2016 a 2022, o RBC ocupa a 5ª posição com US$ 253,9 bilhões em financiamentos. Está atrás dos estadunidenses Bank of America (US$ 281,2 bi), Wells Fargo (US$ 318,2 bi), CITI (US$ 332,9 bi) e JP Morgan Chase (US$ 434,1 bi).

O relatório destaca oito bancos estadunidenses e cinco canadenses. Todos possuem políticas que permitem a continuação de apoios a empresas que desenvolvem novos projetos de petróleo e gás. Os canadenses RBC, TD e Bank of Montreal, inclusive, estão no topo dos investimentos para a exploração de petróleo de areias betuminosas, que pode emitir de três a cinco vezes mais gases de efeito estufa do que a média global por barril de óleo por requerer mais energia para a extração. Ano passado, foram responsáveis por 89% dos US$ 21 bilhões financiados para esse tipo de petróleo. 

Os três também financiam a construção do gasoduto Coastal GasLink, que passa por terras indígenas no Canadá, da TC Energy. Richard Brooks, diretor de Finanças Climáticas da Stand.earth, lembra que o RBC ganhou o posto de banco mais sujo do mundo por sustentar a economia de combustíveis fósseis enquanto propaga ser sustentável e apoiar os direitos indígenas. “Na realidade, o banco está poluindo nossas comunidades, financiando o caos climático e as violações dos direitos indígenas em bilhões”, diz.

O RBC, junto ao gigante JP Morgan Chase, também é o principal financiador de petróleo e gás fracking, técnica de perfuração com capacidade de alcançar minúsculas bolhas de gás que necessita de substâncias químicas, algumas muito tóxicas, para auxiliar na extração. É um dos processos que mais resulta em “vazamentos” de metano. Em 2022, o financiamento alcançou US$ 67 bilhões, um aumento de 8% em comparação a 2021. O RBC também é um dos financiadores da estadunidense ConocoPhillips, empresa que tem explorado o Ártico, área ambientalmente sensível.

Além do RBC, outros 15 bancos aumentaram os financiamentos de 2021 para 2022. O francês Crédit Mutuel, apesar de estar na 59ª posição, deu um salto de 799,19% nos financiamentos do período. Outros exemplos são o espanhol Caixa Bank (364,85%) e o australiano ANZ (148,51%).

Destaques de financiamento

O financiamento para gás natural liquefeito (GNL) aumentou de US$ 10,8 bilhões em 2021 para US$ 21,3 bilhões em 2022. Os principais bancos que contribuíram para o crescimento foram os estadunidenses Morgan Stanley, JP Morgan Chase e CITI, os japoneses Mizuho e grupo SMBC e o holandês ING. As 30 principais empresas que expandiram a produção de GNL usaram a guerra entre Ucrânia e Rússia para garantir mais financiamento dos bancos. A justificativa era que o conflito poderia causar alguma falha no fornecimento de energia na Europa.

A exploração de petróleo e gás offshore, extração ocorrida no mar, tem no topo de financiadores os franceses BNP Paribas e Crédit Agricole, além do grupo SMBC. Já 87% do financiamento para as 30 maiores empresas de mineração de carvão vieram dos chineses CITIC, China Everbright e Industrial. 97% do financiamento para energia a carvão também vieram de bancos chineses. 

As instituições financeiras também têm contribuído para a exploração de combustíveis fósseis em áreas ambientalmente sensíveis, como no Ártico e na Amazônia. A exploração de petróleo e gás na região do Ártico, por exemplo, conta com o suporte financeiro de 30 bancos, sendo os principais financiadores de 2022 os bancos chineses ICBC, Agricultural Bank of China e China Construction Bank. Somado, o trio desembolsou US$ 2,9 bilhões ano passado. 

Na Amazônia, a exploração de combustíveis fósseis já recebeu US$ 769 milhões de investimento. Apesar de os americanos JPMorgan Chase, CITI e Bank of America serem responsáveis pela maior parte dos recursos desde 2016, no ano passado a liderança ficou com o espanhol Santander, que desembolsou US$ 169 milhões. Entre as empresas beneficiadas estão a colombiana Ecopetrol, Petróleos del Perú, PetroEcuador e a brasileira Petrobras.

Uma investigação do Stand Research Group de 2021 mostrou que o JPMorgan Chase é um dos bancos classificado como de alto risco para a floresta amazônica, pois possui políticas ambientais e sociais fracas e alto volume de financiamento para empresas que atuam no bioma e geram devastação. O inglês HSBC e o CITI também foram considerados de alto risco por possuírem políticas insuficientes para governar os perigos ambientais e sociais. O CITI, por exemplo, financiou a compra da Amerisur pela GeoPark Ltd, uma empresa colombiana com histórico negativo em questões ambientais e sociais.

O relatório conclui que é essencial que os bancos parem de financiar a indústria de combustíveis fósseis imediatamente, para que a temperatura não continue aumentando e agravando a emergência climática. O documento ressalta que deve haver aumento no financiamento para energia renovável e outras soluções de baixo carbono, além de exigir planos de transição robustos de todos os clientes que exploram combustíveis fósseis.

“As empresas de combustíveis fósseis são quem despeja petróleo, gás e carvão no planeta, mas são os grandes bancos que seguram os fósforos. Sem financiamento, os combustíveis fósseis não queimarão”, diz April Merleaux, Gerente de Pesquisa e Políticas da Rainforest Action Network.

O relatório foi apoiado por mais de 550 organizações de mais de 70 países, que pedem aos bancos a paralisação de investimentos contra o clima. O Observatório do Clima é uma das instituições apoiadoras. (PRISCILA PACHECO)

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