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Conferência do clima começa em Bonn, à sombra da guerra

Invasão da Ucrânia e reforço a combustíveis fósseis montam cenário para negociações da COP27, no Egito

07.06.2022 - Atualizado 20.06.2022 às 09:44 |

CLAUDIO ANGELO
DO OC, EM FRANKFURT

A SB56, a reunião do clima de Bonn, começou nesta segunda-feira na antiga capital da Alemanha Ocidental à sombra de um revival da Guerra Fria: com a invasão russa da Ucrânia dominando as preocupações internacionais e a segurança energética de cada país no topo da agenda, há muito estímulo para a produção de combustíveis fósseis e pouco para a cooperação internacional.

Já em uma das primeiras sessões, representantes de diversos países se retiraram da sala de negociações durante pronunciamento de um oficial russo. O protesto, que marcou a primeira intervenção da Rússia em um fórum climático da ONU desde a invasão da Ucrânia, vem se repetindo em reuniões das Nações Unidas desde o início do conflito.

Os negociadores de 196 nações reunidos na Alemanha até o próximo dia 16 têm como missão produzir os rascunhos dos documentos que serão acordados no fim do ano, na COP27, a conferência de Sharm El-Sheikh, no Egito. Há dois temas caros para os países em desenvolvimento:  a meta global de adaptação e criar uma estrutura multilateral para o financiamento às perdas e danos climáticos – os efeitos do aquecimento da Terra aos quais os países pobres não podem mais se adaptar. Um grupo de países em desenvolvimento propôs que esses dois itens fossem incluídos na agenda da reunião. Além desses temas os países devem ainda debater um esquema de revisão anual da ambição das metas de corte de gases de efeito estufa dos países, de forma a tentar manter viva a meta de limitar o aquecimento global a 1,5oC. ; e criar uma estrutura multilateral para o financiamento às perdas e danos climáticos – os efeitos do aquecimento da Terra aos quais os países pobres não podem mais se adaptar.

A questão das perdas e danos foi objeto de brigas no ano passado, na COP26, a conferência de Glasgow. A reunião no Reino Unido teve sucesso em concluir o chamado “livro de regras” do Acordo de Paris, um grande manual de operação do tratado do clima. No entanto, o pleito dos países em desenvolvimento de criar um mecanismo internacional (facility, no jargão dos negociadores) para financiar perdas e danos acabou sendo postergado.

Os países ricos, que veem a questão de perdas e danos como uma produção de provas contra si mesmos (reconhecer o assunto seria também admitir que eles foram os principais responsáveis pelo aquecimento observado e devem uma compensação aos países pobres), fizeram pressão para que a COP26 terminasse com a promessa de um frouxo “diálogo” sobre o financiamento de perdas e danos em vez da criação de uma facility.

Na plenária final da COP, em novembro passado, os países do G77, o bloco das nações em desenvolvimento, deixaram claro que gostariam de ver mais do que uma converseira em 2022. A reunião de Bonn serviria para isso – só que o tema foi deixado de fora da agenda da SB56, enfurecendo ambientalistas.

“Das pautas principais do encontro, já perdemos uma”, disse Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima. O debate sobre a meta global de adaptação entrou na agenda oficial, mas foi reduzida a apenas duas reuniões e alguns países querem diminuir a importância do debate sobre ambição.

Ciente do tamanho do problema, a secretária-executiva da Convenção do Clima da ONU, Patricia Espinosa, reforçou o chamado ao multilateralismo em seu discurso na plenária de abertura do encontro. Sem citar nominalmente a guerra, a diplomata mexicana, que sai do cargo no meio do ano, disse que estamos em “tempos desafiadores”, mas que é preciso fazer mais.

“O enfrentamento da crise climática é o ato final de união entre as nações. Precisamos seguir adiante. Estamos melhor hoje por causa do multilateralismo”, afirmou.

Com o conflito na Ucrânia, o mundo impôs embargos à Rússia, um dos maiores exportadores de petróleo do mundo. Isso fez com que os países europeus, tradicionalmente focados na transição para energias renováveis, aumentassem a exploração doméstica de combustíveis fósseis. Da mesma forma, os EUA apelaram a vários produtores de petróleo, inclusive o Brasil, para que aumentassem sua produção.

O infortúnio geopolítico não poderia vir em hora pior: neste ano, o IPCC, o painel de cientistas do clima da ONU, afirmou que metade da população mundial vive hoje sob risco climático, que será preciso reduzir em 43% as emissões do mundo inteiro até 2030 e que a chance de ultrapassarmos 1,5oC, a meta do Acordo de Paris, tende a 100% nos próximos 20 anos.

No ano passado, mesmo com a pandemia, o mundo bateu recordes de concentração de gases de efeito estufa, aumento do nível do mar, teor de calor no oceano e acidificação marinha. O máximo a que a humanidade pode aspirar agora é devolver a temperatura a níveis inferiores a 1,5oC até o fim do século. Mas o esforço para isso não está aparecendo, e o pontapé inicial da negociação de Bonn foi pouco auspicioso.

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