O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, que chamou a mudança climática de "fraude inventada pelos chineses"

06.12.2016 - Atualizado 06.12.2016 às 16:39 |

DO OC

Um dia depois que Donald Trump foi visitado pelo caixeiro-viajante do combate ao aquecimento global, Al Gore, um grupo de 800 cientistas americanos publicou uma carta aberta ao presidente eleito pedindo que ele não abandone a liderança americana na transição para um mundo de baixo carbono.

A carta, publicada nesta terça-feira, é assinada por vários líderes científicos do IPCC, o painel do clima da ONU, acadêmicos conhecidos nas áreas de climatologia, meteorologia, ecologia e geociências, e centenas de estudantes de pós-graduação.

Entre os signatários estão Alan Robock, um dos maiores especialistas do mundo em geoengenharia; Michael Mann, da Universidade do Estado da Pensilvânia, que ficou famoso pelos ataques que recebeu de negacionistas do clima (vários deles hoje aliados de Trump) após publicar seu famoso gráfico do “taco de hóquei”, na década passada; a historiadora Naomi Oreskes; o físico Ben Santer, primeiro cientista a apontar uma influência “discernível” dos seres humanos no clima; e o especialista em furacões Kevin Trenberth.

Os pesquisadores pedem que Trump adote seis medidas ao assumir para assegurar que os EUA não perderão o bonde da história no combate à mudança do clima: tornar o país um líder nas energias limpas; reduzir as emissões; ampliar a resiliência, por meio de investimentos em infraestrutura (prioridade anunciada por Trump); reconhecer publicamente a realidade e a ameaça da mudança climática; proteger a integridade científica; e manter os EUA no Acordo de Paris.

“Nós lhe rogamos que decida se sua presidência será marcada por negação e desastre ou por aceitação e ação”, escreveram os cientistas.

“O ponto que parece importante e bem levantado nessa carta é que eu os Estados Unidos iriam perder influência nas negociações internacionais, cedendo para a China a e União Europeia a autoridade política, tecnológica e  moral e, consequentemente, perdendo liderança com respeito a outros países. Esse argumento vai bem ao encontro dos ideais trumpistas de manter a liderança em tudo”, diz a climatologista brasileira Leila Carvalho, professora da Universidade da Califórnia em Santa Barbara e uma das signatárias da carta.

Desde a madrugada de 9 de novembro, quando a vitória do republicano foi anunciada, a comunidade científica americana e a comunidade internacional que lida com o tema estão em suspense. Trump é um conhecido negacionista da mudança climática, que ele chamou de “fraude” durante a campanha. Sua equipe de transição na área ambiental é liderada por um membro de um think-tank conservador que recebeu dinheiro do lobby fóssil para produzir uma campanha de desinformação sobre a ciência do clima. Durante a COP22, em Marrakesh, negociadores aguardavam a qualquer momento o anúncio de Trump de que ele iria retirar os EUA da Convenção do Clima das Nações Unidas.

Alguns pesquisadores americanos afirmam que Trump deve levar um choque de realidade quando assumir a Casa Branca, em janeiro, e concluir que a economia real dos EUA já está tão comprometida com a transição para além dos combustíveis fósseis que o retorno do carvão e do petróleo nos moldes trombeteados por Trump na campanha simplesmente não é mais possível.

“Trump disse várias vezes que quer incentivar o óleo e gás e trazer de volta o carvão. O que é interessante aqui é que, domesticamente, quem está ganhando a guerra contra o carvão é o gás natural, não as regulações”, disse Katharine Mach, da Carnegie Institution, em entrevista ao OC em Marrakesh. “E todos os cinco Estados que têm mais energia eólica votaram em Trump.”

O problema é que o novo presidente dos Estados Unidos tem dado sinais contraditórios sobre o assunto. Por um lado, em entrevista ao The New York Times, Trump disse que tinha a “mente aberta” sobre a mudança do clima. Por outro, sua equipe de transição já ameaçou cortar a verba da Nasa para observação da Terra, que inclui basicamente toda a ciência climática.

Nesta segunda-feira, o QG de transição de Trump, a Trump Tower, em Nova York, foi visitado por Al Gore. O ex-vice-presidente, segundo relato do New York Times, chamou o encontro de “muito longo e produtivo”. Antes de Trump, Gore encontrou-se com Ivanka, filha mais velha do magnata, que já se mostrou preocupada com a mudança climática.

Apesar do otimismo que o encontro com Gore despertou nos ativistas, o jornal afirma que o fato permanece que Trump tem apontado apenas lobistas da indústria fóssil para postos-chave em seu gabinete. Entre os candidatos a chefiar a Agência de Proteção Ambiental, por exemplo, está um advogado que ajudou empresas a processar a administração Obama pelo Plano de Energia Limpa.

Carvalho, que encarna boa parte dos ódios que Trump professou na campanha – é mulher, latino-americana e cientista do clima – diz que o clima na academia nos EUA, previsivelmente, é de frustração com o resultado da eleição. Em especial por jovens, que hoje têm mais acesso à informação e, no caso do clima, a certeza de que o problema é real e agravado pelos humanos.

“É normal a frustração e o receio de que o racismo, o machismo, o preconceito contra a mulher e a ignorância de modo geral nos remontem à idade das trevas culturais nos próximos anos. Felizmente, contudo, vivo na Califórnia e trabalho em uma universidade que tem se manifestado constantemente com uma posição antidiscriminatória”, diz. “Enfim, tempos interessantes que nunca pensamos que iríamos passar, mas que, por outro lado, estão movendo massas que antes estavam estagnadas. Esperamos que a justiça social e ambiental ganhe essa luta. De outra forma, perderemos todos.”

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