Txai Suruí discursa na abertura da COP26 (Foto: UNFCCC/Flickr)

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Maltrato a indígenas dá ao Brasil o “Fóssil da Semana” em Glasgow

Txai Suruí, única representante do país a discursar na abertura da COP26, foi agredida verbalmente por membro da delegação

06.11.2021 - Atualizado 08.11.2021 às 22:45 |

DO OC, EM GLASGOW – O Brasil recebeu neste sábado (6) o antiprêmio Fóssil da Semana, concedido por uma rede de mais de 1.500 organizações ambientalistas aos países que “fazem o melhor para ser os piores” na COP26. Segundo a Climate Action Network, o país mereceu troféu da vergonha por conta do “tratamento tenebroso e inaceitável aos povos indígenas”.

Na segunda-feira, a estudante de direito Txai Suruí, 24, foi agredida verbalmente por um membro da delegação brasileira após discursar na Cúpula dos Líderes, que reuniu mais de uma centena de chefes de Estado e governo na abertura da COP. Ela foi a única voz brasileira a falar no segmento de abertura, diante de Joe Biden, António Guterres, Angela Merkel e outros líderes globais. O presidente Jair Bolsonaro alegou indisponibilidade de agenda para ir à COP e resolveu fazer uma homenagem a si mesmo no interior da Itália, com políticos de extrema-direita.

Em seu discurso, Txai foi aplaudida por abordar a situação da Amazônia e os impactos que os indígenas já sofrem com as mudanças climáticas. Na saída, foi assediada por um delegado brasileiro, que gritou para ela “parar de falar mal do Brasil”. O homem foi posteriormente identificado como um funcionário do Ministério do Meio Ambiente.

Houve pelo menos mais uma altercação entre membros da delegação do Brasil e observadores indígenas na COP. Um deputado de Mato Grosso foi abordado por seguranças da ONU após provocar mulheres indígenas nos corredores na quarta-feira.

Segundo a Climate Action Network, “tal comportamento desprezível é bem documentado no Brasil: o garimpo está poluindo rios, intimidações ocorrem o tempo todo [o pai de Txai, o cacique Almir Suruí, foi intimado pela Polícia Federal a mando da Funai, por criticar o governo] e eles têm um vice-presidente que justificou a recusa em mandar água potável para aldeias atingidas pela Covid porque ‘os índios se abastecem dos rios’. Poderíamos continuar aqui falando de florestas e desmatamento, mas você já entendeu”.

É o primeiro Fóssil dado ao Brasil em Glasgow. Na COP25, em Madri, o país havia recebido o Fóssil do Ano por ter feito de tudo para atrapalhar as negociações (e se recusado a sediar a própria COP). Em 2020, o país recebeu o Fóssil Colossal por ter sido o que mais restringiu o espaço de participação da sociedade civil. Isso se reflete na própria composição da delegação brasileira em Glasgow, que tem 15 lobistas da indústria e do agronegócio, 25 empresários, cinco primeiras-damas e nenhum ambientalista ou indígena (nos governos Lula, Dilma e Temer a política oficial do Itamaraty era credenciar todo mundo).

Os ambientalistas reconheceram que o país chegou em Glasgow num espírito diferente do visto em Madri, com mais autonomia dada pelo governo aos diplomatas para negociar e assinando acordos sobre metano e florestas. A CAN atribui essa mudança de atitude à ausência de Bolsonaro na COP.

O Ministério do Meio Ambiente foi procurado sobre o caso de Txai Suruí, mas ainda não havia se manifestado até o fechamento deste post.

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