Morador observa estrago causado por enxurrada em Murici, AL (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

30.03.2016 - Atualizado 30.03.2016 às 18:54 |

CARLOS RITTL*

O Brasil paga todos os dias o preço da própria incompetência e negligência. Não, não estou falando do clima cada vez mais precário da política. Trata-se do clima no mundo real, num aquecimento acelerado que provoca alterações cada vez mais perigosas, com efeitos muito preocupantes e riscos crescentes em uma nação que não se prepara.

O país tem assistido a mortes e prejuízos bilionários por desastres naturais que se multiplicam. Vemos doenças antigas e novas tornarem-se epidemias. Os preços dos alimentos disparam na feira. A falta d’água, antes problema de regiões mais pobres, atinge agora até ás áreas mais ricas. E só não vem acompanhada de falta de luz porque a economia fraqueja. As alterações do clima escancaram a dimensão da irresponsabilidade nacional. Mas isto está com os dias contados.

Daqui para a frente, o agravamento das mudanças climáticas forçará o governo e a população brasileira a mudar, sob pena de sucumbirmos aos seus impactos ou ficarmos para trás de nossos concorrentes no mercado global no aproveitamento das suas oportunidades.

Um dos maiores exemplos de prática que precisará se transformar é a maneira como se planeja (ou não) a expansão da geração de energia no país. Os responsáveis por determinar de quanta eletricidade precisaremos usam uma premissa falsa: a de que o potencial de nossos rios é estacionário, ou seja, o que era ontem é hoje e será amanhã. Como uma série de estudos recentes tem mostrado, boa parte dos reservatórios nacionais terá menos água – portanto, menos energia – no meio do século. E alguns grandes rios da Amazônia, nos quais se planeja construir novas grandes barragens, correm o risco de ter muito menos água do que hoje.

Então, empatar bilhões de reais em grandes hidrelétricas como Belo Monte e São Luiz do Tapajós só porque sempre fizemos assim no passado – ou por outras razões, que Sérgio Moro explica – é um caminho certo para apagões no futuro e para desastres financeiros. A crise econômica atual, que reduziu a demanda por eletricidade, nos dá uma janela de oportunidade para repensar o setor e o papel das novas renováveis (e de velhas como o etanol) nele.

A produção de alimentos é outra área na qual o país precisará ficar muito mais esperto e eficiente. Nos últimos cinco séculos, a agropecuária nacional tem vivido segundo dois mitos de abundância: o de que “nesta terra em se plantando tudo dá” e o de que a fronteira é infinita, bastando derrubar mais florestas e incorporar mais terras para expandir eternamente a produção. Esse jogo acabou.

Primeiro, porque a necessidade de frear o aquecimento da Terra requer zerar o desmatamento em todo o país. (Fora que commodities produzidas à base de desmatamento são uma coisa tãão 1970, não é?) Depois, porque vamos precisar restaurar muita floresta: há um passivo de 25 milhões de hectares que precisam ser recompostos para cumprir o Código Florestal, mas também para reduzir nossa vulnerabilidade a secas extremas como a que deixou os paulistanos por mais de um ano sem água. Será preciso ter ganhos de produtividade, especialmente na pecuária, por meio de um grande pacto nacional pela recuperação de pastagens – não apenas no papel, como temos hoje.

E, finalmente, porque o risco climático para a maioria das culturas agrícolas, incluindo o arroz e o feijão do seu prato, está crescendo e crescerá ainda mais nas próximas décadas com o aquecimento da Terra. Isso não quer dizer que vai faltar comida, mas que a agropecuária terá de incorporar muita tecnologia para produzir mais em menos área. O Brasil é bom nisso e terá vantagens competitivas ao fazê-lo. O setor tem se movido, mas de maneira ainda lenta, e com algumas lideranças que lá fora vendem uma agropecuária do século 21, mas aqui dentro usam práticas do século 17, como na criação extensiva de gado.

Países como a China perceberam há muito tempo que há um mundo novo surgindo neste século, e correm para liderá-lo. O governo chinês está apostando em crescer com qualidade, usando eficiência e inovação tecnológica para reduzir a desigualdade crescente e a poluição das grandes cidades. O Brasil custa a se mexer, escorado na falácia de que já somos limpos e eficientes – uma manifestação clássica da indolência nacional.

Uma das principais lições da mudança climática é que ninguém está seguro e todos terão de se mexer. Esse é o tipo de ambiente que favorece a inovação, em todas as áreas. O mundo começa a se reorientar em torno de uma lógica de baixo carbono, e o Brasil tem boa parte dos ingredientes necessários para dar esse salto com vantagens sobre todo mundo.

Mas, se esperar demais, como tem feito, vai ficar para ainda mais para trás e sofrerá impactos crescentes de um clima cada vez mais hostil ou de uma economia de baixo carbono cada vez mais competitiva. Para um país em crise profunda, ficar para trás significa estender por muito tempo os efeitos da recessão de agora. E, por incompetência, abrir mão de imensas vantagens comparativas que podem não apenas ser nossa grande contribuição para o clima do planeta: podem ser, inclusive, a saída da crise e o caminho para um desenvolvimento sólido, consistente e sustentável.

Carlos Rittl, 47, é secretário-executivo do OC.

* Este texto foi originalmente publicado no Blog do Planeta, da revista Época.

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