Bernardo Flores estuda a resiliência de ecossistemas (Arquivo pessoal)

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“Nenhuma parte da Amazônia está segura”

Coautor de estudo sugerindo que metade da floresta pode colapsar em meados do século diz que só zerar desmatamento não basta se aquecimento global não for contido

16.02.2024 - Atualizado 14.03.2024 às 10:15 |

DO OC – A revista científica Nature trouxe nesta semana em sua capa um petardo: um estudo liderado por pesquisadores brasileiros sugere que, até 2050, algo entre 10% e 47% da floresta amazônica estará exposta a perturbações que podem rapidamente desencadear seu colapso.

O estudo é possivelmente o mais completo publicado até agora sobre o temido “ponto de virada” da Amazônia, o momento a partir do qual o bioma deixa de ser uma floresta e vira uma mixórdia de ecossistemas mais parecidos com uma savana empobrecida. Além da tragédia para a biodiversidade, essa transição seria uma catástrofe para o clima, já que a Amazônia estoca, em suas árvores e em seu solo, o equivalente a uma década de emissões humanas de gases de efeito estufa.

Um grupo de 24 pesos-pesados da ciência ambiental (que inclui um dos proponentes originais da ideia do colapso amazônico, o paulista Carlos Nobre) liderados por Marina Hirota e Bernardo Flores, ambos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), fez um mapa detalhado das áreas amazônicas hoje expostas a perturbações diversas – desmatamento, degradação, queimadas, incêndios e fragmentação – e o cruzou com informações de modelos climáticos usados pelo IPCC, o painel do clima da ONU.

Eles concluíram que existe um número mágico na hidrologia da região: 1.800. Essa é, em milímetros, a quantidade de chuva por ano de que a floresta precisa para se manter floresta. A combinação entre degradação e secas induzidas pela crise climática está empurrando vastas porções da floresta para a zona abaixo dos 1.800 milímetros. Quando isso acontece, a mata entra num estado chamado de “bi-estável”, no qual qualquer peteleco pode empurrar todo o ecossistema para o colapso, dando lugar a outro tipo de vegetação. 

“Eu não acho que tem uma parte da Amazônia que está segura, não”, disse  Flores. “Porque muita gente considera que parte da Amazônia vai ficar. Quanto mais se perder da Amazônia, mais a gente pode perder outras partes da Amazônia”, prosseguiu.

O ecólogo, um carioca nascido na Bahia e radicado em Florianópolis, falou ao OC sobre a pesquisa – e o quadro assustador que ela delineia.

Leia a entrevista. (CLAUDIO ANGELO)

Nos últimos anos a ideia de um ponto de virada para a Amazônia vinha ganhando força em uma série de trabalhos científicos. O que esse novo estudo acrescenta à hipótese?

O que havia antes eram trabalhos bem mais simplificados do sistema amazônico, que olhavam para uma variável. A gente tinha principalmente trabalhos baseados em modelos simulando como a vegetação iria responder a alguns fatores de estresse. Alguns desses modelos olhavam principalmente para o aquecimento global, como ele modifica o clima amazônico. Um pequeno grupo de modelos apontava o colapso de partes da floresta na porção sul e leste e um pequeno grupo previa um colapso de larga escala, um dieback, baseado na relação entre chuva e floresta. Florestas produzem chuva e chuvas mantêm florestas. Quando você perde floresta você perde chuva e começa um ciclo de mortalidade que se acelera, e o tipping point (ponto de virada) era quando se acelerava essa perda.

Outra linha veio com o Carlos Nobre nos anos 1990 e olhou para a perda de floresta a partir do desmatamento, que causava a mesma coisa. Em 2016, a partir de um modelo, eles encontraram esses 20% de desmatamento que poderiam iniciar um ponto de não retorno. Depois artigos de opinião começaram a dar muita visibilidade para a questão do desmatamento. No período do governo Bolsonaro teve o trabalho da Luciana Gatti [que mostrou, em 2021, que partes da floresta já são emissoras líquidas de carbono]. 

A gente sabia que precisava fazer esse trabalho, porque tem muita coisa a entender sobre o colapso da Amazônia. E junto com a Marina Hirota lideramos o capítulo do primeiro Painel Científico da Amazônia, publicado em 2021, que tinha esse tema. Tivemos a ideia de transformá-lo num artigão, e evoluímos muito em cima daquele capítulo. Aplicamos o que nós conhecíamos de sistemas dinâmicos e tipping points no sistema amazônico. E descobrimos várias lacunas de conhecimento.

Por exemplo?

Por exemplo, qual é o papel da fertilização de CO2 da atmosfera na floresta [a hipótese de que mais gás carbônico no ar aumentaria a fotossíntese, portanto poderia contrabalançar alguns efeitos da crise climática]. Os modelos dizem que ela aumenta a resiliência, mas…

…não foi isso o que foi verificado, né?

Pode ir para um lado ou para o outro, depende da escala. Mas a gente não sabe. Pode aumentar a eficiência fotossintética e a floresta crescer mais rápido, mas também morrer mais rápido. Isso pode fazer com que ela emita mais CO2 do que estoque. Pode aumentar a eficiência do uso da água, mas ela pode transpirar menos e reciclar menos chuva. Aí tem a heterogeneidade: como cada pedaço de floresta resiste a secas? Como eles responderiam se houvesse seca? O oeste da Amazônia é super vulnerável a secas, mas nunca vivencia secas. E se for exposto? A gente não sabe. Estamos começando a entender o papel da hidrologia. A outra coisa são os distúrbios, pouca gente olha para eles interagindo. Como você combina calor com seca, com fogo, com extração de madeira e efeito de borda. O que isso faz com a floresta? Esses efeitos são sinérgicos? Os modelos precisam incorporar esses fatores, além da diversidade [biológica]. A maioria deles trata a Amazônia como uma monocultura quase. 

No começo dos anos 2000 surgiu a hipótese de um colapso de grande escala da Amazônia, o dieback, no qual o aquecimento global causaria morte maciça de árvores. Mas os modelos não corroboraram isso na escala proposta. Por que não?

Faz sentido os modelos não encontrarem o dieback, porque eles consideram que a Amazônia está sendo estressada só por seca. E no passado a floresta vivenciou seca e continuou lá. Mas não é isso o que está acontecendo. E os modelos são extremamente simplistas. Eles consideram, por exemplo, a fertilização do CO2 como um efeito positivo e pode ser que isso não exista. Eles não consideram desmatamento, não consideram fogo. Para mim o exemplo mais marcante é o incêndio de 1998 em Roraima, que queimou uma área gigante de floresta. No Xingu tem havido incêndios também. Esses incêndios vão começar a transformar a paisagem amazônica. Mas pode ser também que não tenha um dieback, ou que ele seja gradual. 

Esse trabalho de vocês parece corroborar o dieback, não? Vocês dizem que quase metade da floresta pode mudar de estado. Como é isso?

A gente identificou três tipos de ecossistemas que passariam a dominar a paisagem amazônica. As observações atuais mostram o que aconteceu onde houve perturbação e a gente juntou isso em três grandes tipos: primeiro, florestas degradadas. Nem todas as partes da Amazônia perturbadas viram áreas abertas. Isso tem a ver com limiares críticos de chuva. Onde você tem mais de 1.800 milímetros de chuva por ano, a tendência é que a floresta volte e se mantenha como floresta. Só que não necessariamente será a mesma floresta. Chamamos isso de floresta degradada. Mesmo essas florestas podem ficar aprisionadas num estado de vegetação aberta, se houver muita frequência de fogo. O segundo tipo são áreas abertas, com poucas árvores, gramíneas invasoras exóticas. Há ali árvores típicas de floresta, mas que toleram fogo, então o ecossistema fica hiper-inflamável. E fica aprisionado nesse estado hiper-degradado, que é o pior de todos. E que provavelmente vai dominar a paisagem nas regiões mais secas da Amazônia, onde tem menos de 1.800 milímetros de chuva por ano. O terceiro são as savanas de areia branca, que já estão se expandindo onde as gramíneas invasoras não chegam, com árvores nativas típicas de savana. E a gente já viu no médio Rio Negro que isso acontece muito rápido. 

Vocês falam em sistema bi-estável. O que é isso?

É uma floresta que parece que está ótima. Mas ela é pouco estável, ela tem um estado alternativo. Se você tem uma floresta uniestável, se ela tem mais de 1.800 milímetros de chuva por ano, você tem só um estado de equilíbrio. Quando você tem uma região bi-estável, pode ter dois atratores: alta cobertura de árvores e baixa cobertura de árvores. Se você perturba essas florestas elas podem ficar aprisionadas num estado de baixa cobertura de árvores. Nós mapeamos onde hoje é bi-estável e projetamos com base nas tendências de mudança de chuva, significativas nos últimos 40 anos, onde vai ficar bi-estável em 2050 e comparamos com as projeções dos modelos usados pelo IPCC. Concluímos que 10% da Amazônia têm mais de três distúrbios somados e alta chance de sofrer uma transição, e 47% tem mais de um. Isso aumenta a chance de o ecossistema ter uma transição.

Adianta só zerar desmatamento a esta altura?

Acho que não. Está ficando feia a coisa. Se a gente zerar desmatamento e o [aquecimento global] continuar se intensificando, talvez a gente nem consiga zerar o desmatamento porque vai queimar para todo lado e a gente vai perder o controle. Precisa ser uma ação global para reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa e uma ação amazônica entre os países para zerar desmatamento e degradação e expandir a restauração. Porque, quanto mais floresta a Amazônia tiver, da extensão original do bioma, mais resiliente o sistema vai ser. Mas mesmo assim não sei se é o suficiente.

Te assustou o resultado?

A gente vai descobrindo as coisas aos poucos. Mas eu acho assustador olhar para esses números e pensar que em 30 anos se a gente não resolver a floresta pode iniciar… muitos cientistas podem não concordar com essa ideia porque são sistemas tão gigantes. Mas quando a gente trabalha com sistemas dinâmicos e observa vários exemplos no mundo de sistemas que se transformam abruptamente… a gente tá vendo como os recifes de coral da Austrália estão respondendo ao aquecimento das águas. A Amazônia vai começar a responder assim. A gente viu agora este ano (2023), foi um ótimo exemplo do que está por vir. Eu acho muito assustadora a possibilidade de um colapso de grande escala da Amazônia. Mesmo eu tendo gradualmente construído entendimento, é assustador. É muito pouco tempo pra gente reagir. Porque depois que a gente cruzar esse ponto de não-retorno vai ficar quase impossível controlar a perda de florestas, o sistema vai se auto-organizar rumo ao colapso.

O que é o ponto de não-retorno, afinal?

É o ponto em que a perda de florestas começa a se acelerar. Eu não acho que tem uma parte da Amazônia que está segura, não. Porque muita gente considera que parte da Amazônia vai ficar. Quanto mais se perder da Amazônia, mais a gente pode perder outras partes da Amazônia. Há partes da Amazônia que não dependem tanto da reciclagem de chuva e que vão receber muita chuva direto do Atlântico. Mas mesmo assim você tem fatores… é uma interação com o planeta. Por exemplo: a gente não sabe como vai ser nos outros países. A Colômbia agora tá desmatando muito, você tem mineração, expansão de estradas. E além disso, acabou de sair na Science Advances um trabalho mostrando que a circulação meridional do Atlântico (Amoc) está se aproximando de um colapso. E um dos efeitos possíveis do colapso da Amoc é tornar o norte da Amazônia mais vulnerável ao colapso. Há evidências no passado de que quando a Amoc colapsou o norte da Amazônia ficou mais seco. Acho que a gente tem que considerar todos os cenários possíveis de até onde pode ir esse problema e reagir de acordo com o risco.

 

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