Ressaca em Santos em abril (Foto: Denys Sene/Reprodução YouTube)

28.09.2016 - Atualizado 28.09.2016 às 14:12 |

OSWALDO BRAGA DE SOUZA
VICTOR PIRES
DO ISA

Firmado no final de 2015, em Paris, o novo tratado internacional sobre mudanças climáticas pode começar a valer ainda este ano. A expectativa inicial era que isso só ocorresse em 2018. Na semana passada, mais 31 países ratificaram o pacto. Uma semana antes, o Brasil fez o mesmo, incluindo-se entre as primeiras nações que mais poluem a aderir a ele, pouco depois de EUA e China.

Para entrar em vigor, o Acordo de Paris deve ser referendado por ao menos 55 dos países responsáveis por 55% das emissões globais de gases de efeito estufa. Juntas, as 60 nações que já formalizaram sua adesão respondem por 47% das emissões planetárias.

No Brasil, seguem as polêmicas e incertezas sobre o cumprimento das metas nacionais, agora transformadas em lei: uma redução de 37% das emissões, em 2025, e de 43%, em 2030, em comparação aos níveis de 2005. Desde a divulgação do compromisso brasileiro, cientistas e ambientalistas avaliaram que, apesar de ser avaliado como ambicioso no contexto internacional, ele seria modesto considerando o cenário interno e o potencial do país.

Na sexta (23/9), veio a público a revisão da taxa oficial do desmatamento na Amazônia: entre 2014 e 2015, foram destruídos 6.207 km2 de floresta, e não 5.831 km2, como divulgado em novembro. Assim, o acréscimo em relação a 2013-2014 foi de 24%, e não de 16% – o maior aumento em quatro anos. Segundo o jornalista Maurício Tuffani, a informação estava retida no governo desde junho (saiba mais). Parte significativa de nossas emissões origina-se da destruição da floresta.

Dias antes da ratificação pelo governo, o Observatório do Clima (OC) – maior rede da sociedade civil brasileira sobre o assunto, da qual o ISA faz parte – divulgou uma análise mostrando que a queda das emissões brasileiras pode ser maior e que, se o governo não atualizar as referências que balizam nossas metas, acabaremos aumentando, e não reduzindo, as emissões em termos absolutos. Na semana passada, o OC voltou a criticar a atuação governo no tema.

“A minha posição é que nos esforcemos para aumentar nossa meta e encurtar os prazos, aumentar nossa ambição”, disse o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, na cerimônia de ratificação. Segundo o ministério, em novembro deverá ser divulgado um primeiro esboço da estratégia de implementação das metas brasileiras e elas serão discutidas com a sociedade civil e empresários até meados de 2017.

O ISA entrevistou quatro dos maiores especialistas brasileiros para comentar os desafios do país pós-ratificação. Eles reforçam que o Brasil vai caminhar, nos próximos anos, no fio da navalha entre as pressões, de um lado, dos segmentos mais conservadores da indústria da energia, que apostam nos combustíveis fósseis e nas grandes hidrelétricas da Amazônia, e, de outro, da sociedade civil, pesquisadores e parte do empresariado, que lutam por um modelo de desenvolvimento de baixo carbono. Isso em falar no choque de realidade dos próprios impactos das mudanças climáticas, que não pouparão o país, a exemplo do que a crise hídrica de São Paulo já mostrou.

Leia as entrevistas no site to ISA.

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