07.01.2015 - Atualizado 07.01.2015 às 11:37 |

Marcha reúne pelo menos três mil pessoas nas ruas de Varsóvia. Esquema de segurança impede manifestantes de chegarem perto do Estádio Nacional.

OC, 17/11/2013
Bruno Toledo

O frio intenso que fez em Varsóvia não impediu que cerca de três mil pessoas se reunissem no último sábado em frente ao famoso Palácio da Cultura e Ciência, na região central da capital polonesa, para protestar contra as mudanças climáticas e contra o processo de negociação internacional que está sendo conduzido na cidade durante a COP 19. Diversas organizações da sociedade civil, desde grupos ambientalistas e da juventude até movimentos políticos e apartidários, se mobilizaram para marchar sobre as ruas de Varsóvia, também numa tentativa de incentivar a população local a participar das discussões sobre mudanças climáticas.

Os manifestantes concentraram suas críticas na condução das negociações climáticas internacionais. Para boa parte desses grupos, a Conferência de Varsóvia tem sido motivo de frustração, principalmente pela falta de ambição que diversas delegações importantes mostraram nessa primeira semana, e pela incapacidade ou falta de vontade política do governo polonês em liderar as conversas em torno de uma agenda construtiva e efetiva. Assim, “ação” foi uma palavra de ordem frequente em diversos discursos, cartazes e manifestações durante a marcha. Os manifestantes também se lembraram das vítimas do tufão Hayan nas Filipinas e dos 28 militantes do Greenpeace detidos na Rússia há quase dois meses. Confira em nossa página no Facebook um álbum com imagens da marcha em Varsóvia.

  

Um aspecto que chamou a atenção foi o grande esquema de segurança que acompanhou os manifestantes entre os quatro quilômetros que separam o Palácio e o Estádio Nacional, palco das negociações da COP 19. Na última segunda, quando a COP 19 começou, Varsóvia foi palco de violentos protestos devido ao feriado nacional de independência. A marcha deste sábado foi pacífica, mas o esquema de segurança acabou atrapalhando os manifestantes: o grupo ficou muito tempo parado sobre a ponte Poniatowskiego, e quando chegou aos arredores do Estádio Nacional, a marcha passou rapidamente e logo se distanciou. Dentro do Estádio, pouco se ouviu dos manifestantes que passaram rapidamente do lado de fora. Os manifestantes concluíram a marcha em um parque próximo à sede da COP 19, aonde as organizações fizeram suas reivindicações e discursos.

  

A marcha deste sábado chama a atenção para uma dificuldade que a sociedade civil está enfrentando desde a traumática COP 15, em 2009, na cidade de Copenhague: cada vez mais os esquemas de segurança procuram isolar o local aonde acontecem as negociações, o que esvazia um pouco o objetivo das manifestações da sociedade civil. Mesmo dentro do Estádio Nacional, a tolerância aos protestos está menor nessa COP: um grupo de jovens credenciados foi expulso nessa primeira semana por protestar em favor do diplomata filipino Yeb Saño, que está fazendo greve de fome durante a Conferência para pressionar os negociadores nas discussões sobre o fundo de reabilitação e adaptação para países em desenvolvimento atingidos pelas mudanças climáticas. A reação dos organizadores foi considerada despropositada por diversas organizações presentes na COP 19, o que coloca ainda mais acidez na relação entre a sociedade civil internacional e os anfitriões poloneses no Estádio Nacional.

  

Outro aspecto que a marcha deixou evidente é a falta de capilaridade do tema das mudanças climáticas e da COP 19 no cotidiano da população de Varsóvia. Entre os moradores da capital polonesa, a Conferência continua sendo uma incógnita, e o esquema de segurança montado em torno do Estádio Nacional dificulta uma interação maior entre a população de Varsóvia. Entre os moradores da capital polonesa, a Conferência continua sendo uma incógnita, e o esquema de segurança montado em torno do Estádio Nacional dificulta uma interação maior entre a população local e os participantes da COP. Durante a marcha, a presença de cidadãos locais foi muito pequena, e a mobilização não foi capaz de chamar muita atenção na vida cotidiana da cidade. Essa falta de reação é grave, principalmente por causa da postura pouco ativa do governo polonês nas negociações de clima em geral e nesta COP 19 em particular.

Mas esta segunda semana de COP promete mais mobilizações em Varsóvia, especialmente durante o Segmento Ministerial, quando os ministros de Estado chegam ao Estádio Nacional para fechar o processo de negociação. Pela delegação brasileira, espera-se a vinda da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e do ministro de Relações Exteriores e ex-chefe da delegação brasileira em negociações de clima, Luiz Alberto Figueiredo.

  

Fotos: Bruno Toledo/OC

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