Da esq. para a dir: Karla Maass (CAN), Carlos Rittl, Samuel Leiva, Angélica Beltrán e Alejandro Alemán

21.06.2019 - Atualizado 22.03.2021 às 23:16 |

PRESS RELEASE

BONN, 21 DE JUNHO DE 2019 – Os países da América Latina, a imensa e diversa região que sediará a COP25 neste ano, precisam aprender rápido que avançar no Acordo de Paris significa muito mais do que manter a assinatura num pedaço de papel. A mensagem foi dada por organizações ambientais latino-americanas nesta sexta-feira (21), no fim da primeira semana de negociações técnicas do acordo do clima.

Representantes de ONGs da Colômbia, no Brasil, da Nicarágua e do Chile, país que abrigará a COP, concederam entrevista coletiva na antiga capital da Alemanha Ocidental para discutir o que significa ambição numa região que abriga alguns dos maiores e dos menores emissores de gases de efeito estufa do mundo – e que ainda tem grande parte de sua população abaixo da linha de pobreza e, portanto, sentindo de forma desproporcional os impactos da crise do clima.

“As contribuições nacionalmente determinadas precisam ser vistas como oportunidade de implementar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em particular aqueles que estão ligados também à redução da pobreza e da desigualdade de gênero”, disse Alejandro Alemán, da Climate Action Network Latin America e do Centro Humboldt, na Nicarágua.

O Chile não é exatamente o melhor exemplo a seguir. Sua primeira NDC foi considerada “altamente insuficiente” pelo Climate Action Tracker. Ainda que o país tenha feito alguns anúncios no sentido da maior ambição no clima, o governo de Sebastián Piñera ainda não saiu do discurso.

“Enquanto grupo da sociedade civil, nós estamos muito decepcionados, porque a retórica não tem se materializado no mundo real”, disse Samuel Leiva, da ONG chilena Terram. Ele afirmou que o plano do país para descarbonizar a matriz elétrica, anunciado com pompa e circunstância, “não está ancorado em nenhuma legislação, só na vontade do setor privado”, e ninguém sabe o que será dele após 2024. Ao mesmo tempo, diz Leiva, o país quer um projeto de carvão mineral na Patagônia que pode piorar a situação de comunidades que já estão em risco.

As organizações chilenas, continuou Leiva, também vêm tentando sem sucesso aprovar uma lei de proteção de geleiras – algo fundamental para o abastecimento de um país que tira quase toda a sua água doce do degelo sazonal dos Andes. “Santiago vai ficar sem água.”

Se o Chile inspira cuidados, a situação no maior país e maior poluidor da América Latina é verdadeiramente dramática. “O Brasil não vai cumprir sua meta climática de 2020 e está fora do trilho para cumprir a NDC”, disse Carlos Rittl, do OC.

O governo de Jair Bolsonaro desmontou a governança climática do país, fechou as instâncias federais responsáveis pelos planos de controle do desmatamento e lançou um ataque às terras indígenas e áreas protegidas. “Nós agora estamos vendo no mundo real o efeito de uma agenda contrária ao meio ambiente”, afirmou.

O desmatamento em maio foi o maior para o mês em mais de uma década e  o número de operações de fiscalização do Ibama caiu 70% neste ano na Amazônia. Isso é má notícia para o clima, puma vez que o desmatamento responde pela maior parte das emissões do Brasil. “A única coisa que o Estado brasileiro fez pelo Acordo de Paris foi uma assinatura”, afirmou Rittl.

Uma nota de esperança no painel ficou por conta do avanço dos trabalhos da Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas da Convenção do Clima da ONU, que foi negociada na COP 24, na Polônia, e teve seu primeiro encontro nesta semana para delinear um plano de trabalho para 2020/2021.

“O plano mostra várias coisas interessantes, como soluções baseadas na natureza a partir de conhecimento tradicional e a adoção de energia renovável”, disse Angélica Beltrán, da Asociación Ambiente y Sociedad, na Colômbia.

Segundo ela, o conhecimento indígena precisa ser incorporado não apenas às negociações de clima, mas também a espaços como a Convenção para a Diversidade Biológica, de forma a ajudar a humanidade a permanecer em 1,5ºC. Isso, por sua vez, é chave para a sobrevivência dos povos indígenas.

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