Protesto por 1,5 grau em Paris (Foto: Emma Cassidy/Survival Media Agency)

10.12.2015 - Atualizado 07.04.2021 às 09:01 |

ALFREDO SIRKIS
ESPECIAL PARA O OC, EM PARIS

Faltando mais dois dias para o encerramento da COP 21, há margem para um prudente otimismo se assumirmos o processo da Convenção do Clima da ONU como ele é: a busca de um mínimo denominador comum, mais avançado do que o anterior, dentre 196 governos com interesses e vivendo circunstâncias muito diversas. Paris não vai solucionar a crise climática garantindo o paradigma de menos de dois graus. Permanecerá o chamado “gap”: a distância entre o máximo de redução que o conjunto das metas nacionais (INDCs) alcança e o mínimo que o IPCC afirma ser necessário para não atingir o limite de aquecimento de 2oC. Os cálculos mais recentes a que tenho acesso estimam que essa diferença, em 2030, caso cumpridos todos INDC, será de 12 bilhões de toneladas, o que corresponderia, aproximadamente, a dez vezes as emissões do Brasil (no cálculo que inclui a suposta remoção de CO2 por áreas protegidas), algo próximo das emissões anuais da China.

Por que, então, falo de “prudente otimismo”? Porque o patamar do mínimo denominador comum está sendo incrementado: pela primeira vez, quase todos países terão algum tipo de meta, por mais capenga que seja. Isso representa a quebra do paradigma de Kyoto que isentava os “em desenvolvimento” de reduzir suas emissões. Instaurando-se o processo de “ciclos de revisão” quinquenais para rever metas no sentido de mais ambição, elas poderão evoluir mais à frente. Um bom exemplo é o próprio Brasil: uma primeira meta, meio fuleira, a partir de 2009, de “desvio sobre uma projeção de emissões” – sobre estimativas de superdimensionadas de emissões e de PIB – dá lugar agora a uma meta de redução no agregado. Esse processo fica explícito na proposta brasileira de evolução em “círculos concêntricos”, que parece ter boas chances de ser aceita. Ela prevê a evolução das metas dos países em desenvolvimento do “desvio de curva” e da “intensidade de carbono por ponto percentual do PIB” para um círculo final de redução no agregado, ao final. O mínimo denominador comum da COP 21, portanto, promete melhorias incrementais cíclicas crescentes e esse seria um dos seu bons legados.

Mas o que fazer então com as 12 bilhões de toneladas que sobram? Aí temos duas varáveis em colisão: o quanto das INDCs será cumprido de fato? O quanto de emissões será abatido nos processos cíclicos de revisão? A primeira pergunta é embaraçosa, inclusive para o Brasil. É a tal “diferença entre intenção e gesto”. Somos, a justo título, comparativamente falando, um dos países mais avançados. Mas chegamos à COP21 com um aumento de 16% do desmatamento, que nessas alturas do campeonato deveria já estar caindo solidamente abaixo dos 5.000 quilômetros quadrados por ano. Isso, embora muito menos que os 20 quilômetros quadrados por ano dos anos 1990, ainda é obscenamente elevado.

Ao final, ainda sobram essas bilhões de toneladas que terão de ser abatidas por ações em duas frentes distintas: um esforço específico, adicional, dentre grandes emissores (países e empresas) e, sobretudo, a criação de robustos mecanismos econômicos novos, como o da precificação positiva da redução de carbono: o reconhecimento do valor econômico intrínseco da redução de carbono via ações de mitigação para o qual os primeiros passos estão sendo dados na COP21.

A UTOPIA NECESSÁRIS

Nesse contexto, como se encaixa essa reivindicação por um limite de aumento de temperatura de 1,5OC formulado pelas ilhas ameaçadas e que vem ganhando apoios e tração na COP21?

À luz das informações que temos hoje o limite de 2OC já é bastante difícil de ser alcançado. O conjunto das INDCs, caso religiosamente cumprido, dá esse déficit de 12 bilhões de toneladas e aponta para algo próximo de 3oC. Com um aumento de “apenas” um grau, desde o século XIX, já notamos as gravíssimas consequências. Imagine-se 2! Imagine-se 3!

No presente estágio de conhecimento científico-tecnológico, 1,5oC parece praticamente inalcançável, salvo recurso à geoengenharia (espalhamento de sulfetos na atmosfera imitando processos vulcânicos que no passado esfriaram o planeta, entre outras técnicas) ou a invenção de técnicas que retirem carbono da atmosfera massivamente como uma réplica artificial do que oceanos e florestas fazem naturalmente. Há pesquisas nesse sentido mas, até agora, nada numa escala maior. O grande problema é que o CO2 uma vez emitido permanece séculos na atmosfera (o metano, décadas), o que nos faz numa grande medida prisioneiros do passado.

A geoengenharia, até o momento, é vista com muita reserva pela maioria dos cientistas com quem dialogo. Os equipamentos ou processos para absorver carbono massivamente ainda são uma promessa longínqua. No entanto, está patente a necessidade histórica de 1,5oC. Assim como se estabelecem os ciclos de revisão é preciso estabelecer esse objetivo como uma meta de alguma forma evocada no acordo a ser produzido em Paris.

Já vamos precisar de processos exponenciais para chegar nos 2oC. E a característica do exponencial, me perdoem a tautologia, é ser… exponencial. Portanto vale a pena apostar no engenho humano: se a curva de redução puder se direcionar para 2oC, poderá, adiante, ir além, pois isso significará que nossa civilização se direcionando resolutamente para o carbono-zero. A ciência poderá eventualmente criar meios de retirar CO2 da atmosfera se a finança do baixo carbono mobilizar meios suficientes para pagá-lo.

Tudo isso, seja 2oC, seja 1,5oC, dependerá de uma mobilização maciça de recursos, de trilhões de dólares-ano. Até agora a briga é em torno de US$ 100 bilhões para 2020, dos quais apenas US$ 10 bilhões já se materializaram. Como fazer frente a essa situação e quais os mecanismos disponíveis e aqueles as ser criados é assunto para o meu próximo artigo.

No momento, vamos ficar com nosso alvo, utópico mas indispensável: na COP21 queremos menção a um limite de 1,5oC!

Alfredo Sirkis é jornalista, escritor e diretor-executivo do Centro Brasil no Clima

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