Represa seca no Sistema Cantareira, em São Paulo (Creative Commons)

06.02.2015 - Atualizado 06.02.2015 às 15:43 |

Uma boa notícia para os moradores da cidade de São Paulo: a redução de captação de água pela Sabesp, a companhia de saneamento do Estado, está sendo eficaz em prolongar a vida útil dos reservatórios do Sistema Cantareira, que sofrem com a pior crise de sua história. A má notícia é que, se as chuvas até abril não vierem em volumes amazônicos, nem mesmo os chamados volumes mortos se recuperam: se chover na média, o sistema chegará em dezembro com apenas 15% de seu volume, esticando a crise hídrica para 2016.

As informações são de um relatório divulgado nesta sexta-feira (06/02) pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). O centro, do governo federal, instalou uma rede de pluviômetros na região do principal sistema de captação de água para uso urbano de São Paulo, e tem monitorado a chuva nos rios que abastecem os reservatórios. Essa chuva é transformada no equivalente em vazão por um modelo computacional, que permite estimar como evoluirá o nível dos reservatórios até o final do ano de acordo com o quanto chover – 50% a menos que a média, 25% a menos, na média, 25% a mais ou 50% a mais.

Os dados do Cemaden indicam que a situação da água em São Paulo é gravíssima, mesmo com as chuvas que começaram a cair no Cantareira neste mês de fevereiro. Segundo os resultados da modelagem, se a precipitação até abril se mantiver no mesmo patamar do último trimestre de 2014, a água do chamado volume morto 2 – a proverbial raspa do tacho dos reservatórios – se esgota em 202 dias. Isso se nada for feito nesse período para trazer mais água a São Paulo, como a transposição do rio Paraíba do Sul, e se a Sabesp não fizer um racionamento radical.

“Para não ter uma grande crise durante o período de estiagem, de maio a setembro, as chuvas de fevereiro a abril deveriam ser 60% acima da média sobre o Sistema Cantareira”, afirmou o climatologista Carlos Nobre, secretário de Políticas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) e um dos fundadores do Cemaden. Seria um índice equivalente ao da Amazônia.

“Se chover no pior cenário, para chegar em 30 de setembro [início da estação chuvosa] na mesma condição de 2014, a extração teria de ser de 8,31 metros cúbicos por segundo. Hoje ela está em 15,53 metros cúbicos por segundo”, diz a hidróloga Adriana Cuartas, do Cemaden. Antes da crise, a média de captação no Cantareira era de 33 metros cúbicos por segundo.

O sistema chegou ao fim da primeira semana de fevereiro com 18,13 metros cúbicos por segundo chegando dos rios aos reservatórios. Isso é um quarto da vazão média mensal (73,7m3/s) e pouco mais de metade da menor vazão registrada naqueles rios desde a década de 1930 (27 m3/s). Um dos problemas principais, segundo a hidróloga, é que o solo está tão seco que a chuva, além de estar cerca de 40% abaixo da média histórica, não está chegando aos rios na quantidade necessária para repor a água perdida.

“O sistema hidrológico está em déficit e precisa se recompor”, afirmou Cuartas. “Mesmo que chova na média, não se recupera até setembro.”

No novo relatório, o Cemaden esticou as simulações de vazão, que vinham sendo feitas para o período até 30 de setembro, para o final deste ano. Os dados indicam que, para uma chuva na média histórica – em fevereiro, por exemplo, a média é de 199,1 milímetros –, o mantendo-se a captação atual, o volume acumulado nos reservatórios do Cantareira seria de 252 milhões de metros cúbicos. O volume morto total tem 287,47 milhões de metros cúbicos, e o volume útil total do sistema, contando com os volumes mortos, é de 1,269 bilhão de metros cúbicos.

Ou seja, em 30 de dezembro de 2015, em plena estação chuvosa, os paulistanos ainda estariam usando o volume morto do Cantareira, dependendo mais uma vez da boa vontade de São Pedro para encher os reservatórios. A crise hídrica estaria esticada até 2016.

Numa analogia usada pelo engenheiro Antônio Carlos Zuffo, da Unicamp, no blog do jornalista Maurício Tuffani, o Cantareira é um cliente bancário que está no cheque especial. Chuvas dentro da média histórica reduziriam o que esse cliente precisa pagar de juros, mas ele seguiria no negativo no fim de 2015.

O gráfico abaixo, do relatório do Cemaden, permite visualizar melhor o drama de São Paulo:

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As barras pretas representam a média do comportamento do sistema entre 1930 e 2013. As barras cinza mostram quão distante da média histórica ficaria a vazão dos rios se chovesse na média em 2015. Para um cenário extremo, de chuvas 50% acima da média (barras azuis), a vazão do sistema só superaria a vazão média histórica a partir de setembro.

Embora não seja possível descartar que chuvas 50% acima da média aconteçam em 2015, a indicação da estação chuvosa até aqui tem sido em outra direção. Na próxima semana, as chuvas que caem intensas nos próximos dois dias devem perder força. A partir de abril começa novamente a estação seca.

Segundo Nobre, o Rio de Janeiro pode ser o próximo a enfrentar escassez de água, em 2016, se nada for feito. O principal reservatório que abastece a cidade, o Paraibuna, no rio Paraíba do Sul, no interior paulista, já está no volume morto. O Cemaden começou a monitorar também a situação dos reservatórios dos sistemas Paraíba e Alto Tietê.

Embora não seja possível atribuir a estiagem extrema do sistema à mudança climática, cenários montados a partir de modelos climáticos computacionais pelo IPCC, o painel do clima da ONU, indicam que o Sudeste brasileiro tende a ficar mais seco neste século à medida que as temperaturas da Terra sobem, na esteira das emissões de CO2. “Os cenários mostram secas como esta mais comuns e intensas ao leste dos Andes, com uma maior certeza no Nordeste e leste da Amazônia e no Sudeste do Brasil, ainda que nesta última região ainda haja incertezas”, disse o climatologista Antônio Marengo, também do Cemaden, membro do IPCC.

“Pelo menos a crise tem um lado positivo: a população de São Paulo já reparou que água não é um recurso infinito e que secas podem afetar até os mais ricos. A memória é curta, tivemos seca em 2001 e depois disso nada foi feito”, continua Marengo. “Há outro lado positivo: os gerentes e o pessoal de recursos hídricos já estão considerando seriamente as mudanças climáticas no seu plano diretor futuro.”

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