A pré-candidata democrata Hillary Clinton, que disputa as primárias com Bernie Sanders (Foto: reprodução)

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Sucessor de Obama: corte emissões e salve 300 mil vidas até 2030

Aumento da ambição da meta dos Estados Unidos para se ajustar ao objetivo do Acordo de Paris evitaria mortes precoces e economizaria US$ 250 bilhões, 30 vezes o custo do Plano de Energia Limpa

22.02.2016 - Atualizado 22.02.2016 às 18:24 |

CLAUDIO ANGELO
DO OC

Está aí um bom tema para debater nas primárias das eleições presidenciais dos EUA: pesquisadores americanos afirmam que, se os EUA fizerem sua parte para cumprir as metas do Acordo de Paris, quase 300 mil mortes precoces serão evitadas até 2030 e US$ 250 bilhões serão poupados. Mas o número tem uma pegadinha: os EUA “fazerem a sua parte”, aqui, significa uma redução de emissões muito maior do que o plano anunciado pelo presidente Barack Obama.

O estudo foi liderado por Drew Shindell, pesquisador da Universidade Duke e coautor do Quinto Relatório de Avaliação do IPCC (o painel do clima da ONU), e publicado on-line no periódico Nature Climate Change. Ele busca estimar os co-benefícios, para os Estados Unidos, de atingir a meta de estabilizar o aquecimento global em “bem menos de 2oC” até o fim deste século, como propõe o novo acordo do clima.

Maior responsável pelo aquecimento global observado hoje e segundo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, os Estados Unidos propuseram um plano climático (INDC) para Paris que estipula um corte de 26% a 28% nas emissões nacionais em 2025 em relação a 2005. Trata-se de uma “pedalada” do governo de Barack Obama, já que os países industrializados usam 1990 como ano de referência para as reduções. Como após 1990 os EUA só fizeram aumentar as emissões de CO2, escolheu-se 2005 arbitrariamente como ponto de partida para a INDC.

Shindell e colegas dizem que o rei está nu e a meta americana é insuficiente para cumprir que foi combinado em Paris. Se fosse mantido o ano de 2005 como referência, as reduções dos EUA teriam de ser de 40% até 2025, uma meta que o próprio pesquisador chama de “desafiadora”. O desafio só fez crescer depois que Plano de Energia Limpa, principal instrumento regulatório criado pelo governo Obama para cumprir a INDC, foi bloqueado por decisão da Suprema Corte. O plano custaria cerca de US$ 9 bilhões para ser implementado e entregaria, no final, metade do que os EUA precisam cortar somente no setor de geração de eletricidade.

O grupo da Duke e da Nasa buscou olhar a situação pelo lado da cenoura, não do chicote. Eles simularam o que aconteceria no país no curto prazo, daqui a 15 anos, caso os EUA topassem embarcar nessa meta de mitigação e ajustassem sua INDC para o que é necessário. Para isso, criaram dois cenários de “mundo ideal”, um para energia e um para transportes.

No cenário de transportes, no qual o país aumenta a eficiência dos veículos, amplia o uso de gás natural e biocombustíveis e abraça os carros elétricos, as emissões caem 75% em 2030 em relação ao pior cenário de emissões do IPCC. Como um sistema de transportes mais limpo também reduz o ozônio, o enxofre e outros poluentes que moradores de metrópoles brasileiras conhecem bem, mortes prematuras por câncer de pulmão, doenças cardíacas e outros problemas associados à poluição cairiam: 120 mil dessas mortes poderiam ser evitadas até 2030 e mais 14 mil por ano a partir daí.

No setor de energia, o corte seria de 63% em relação ao pior cenário do IPCC. Cerca de 175 mil mortes precoces seriam evitadas até 2030, e mais 22 mil por ano a partir daí. Os benefícios econômicos, medidos em menos horas de trabalho perdidas, menos internações e mais produtividade dos trabalhadores, foram valorados pelo estudo em pelo menos US$ 250 bilhões – quase 30 vezes o custo de implementação do Plano de Energia Limpa.

Shindell e seus colegas advertem que nem tudo são flores: ao eliminar a poluição atmosférica, eliminar-se-ia também o principal efeito colateral positivo dos aerossóis – bloquear a radiação solar, impedindo que parte dela chegue à superfície. Os verões nos EUA ficariam mais quentes. No entanto, se medidas de mitigação semelhantes fossem adotadas por todos os países – ou seja, se o Acordo de Paris fosse levado a sério de verdade – esses efeitos locais seriam anulados pela redução do aquecimento de todo o planeta.

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