Índios do Xingu manifestam apoio à política indigenista do governo, #SQN (Foto: Takumã Kuikuro/Adulterada pelo OC)

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Temer prepara ‘onda de demarcações’ em abril

Plano do presidente, ao qual o OC teve acesso, prevê proteger 66,6% da Amazônia em terras indígenas e unidades de conservação; objetivo é ampliar estoque de carbono e fazer frente a Trump

01.04.2017 - Atualizado 01.04.2017 às 01:24 |

DO OC

O presidente Michel Temer já tem pronto sobre sua mesa o decreto que criará aquilo que auxiliares do Planalto chamam de “a maior onda de demarcações” da história recente do país. No total, serão demarcados 533 mil quilômetros quadrados de terras indígenas numa tacada só, o que equivale a deixar 66,6% da Amazônia sob proteção oficial, entre TIs e unidades de conservação.

O plano, ao qual o OC teve acesso, foi batizado Primeiros Brasileiros Primeiro pela equipe de marketing do Palácio do Planalto. Ele será lançado no próximo dia 19, no Acampamento Terra Livre, que será montado no gramado do Congresso e terá presença inédita do presidente. O ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB-PR), foi escalado por Temer para abrir o evento, ao lado de lideranças kayapós de Redenção (PA).

A Funai chegou a publicar em seu site que Serraglio usaria seu apelido kayapó, “Kubencrid Atxueri”, na assinatura do decreto das demarcações. A informação, no entanto, não foi confirmada pelo MJ. A reportagem procurou a Funai para esclarecimentos, mas não pôde encontrar ninguém mais no órgão indigenista.

Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, a aparente reviravolta na política indigenista e ambiental de Temer dialoga diretamente com interesses geopolíticos do Brasil e com a busca, pelo presidente, de legitimidade no exterior, para compensar a baixa popularidade dentro de casa.

Para provar que não tem preconceito, Temer posa com índio no Planalto (Foto: Romério Cunha/Presidência da República)

Para provar que não tem preconceito, Temer posa com índio no Planalto (Foto: Romério Cunha/Presidência da República)

Um ministro afirmou que Temer ficou impressionado com a informação de que as terras indígenas já homologadas na Amazônia estocam 13 bilhões de toneladas de carbono e já vinha pensando, após consultas à primeira-dama, Marcela Temer, em criar um imenso “banco de carbono” na floresta. Assim, com a entrada em vigor do Acordo de Paris, o Brasil teria um forte lastro de carbono florestal e poderia ditar o preço da commodity no mundo. “Marcela foi fundamental no desenho dessa proposta, porque mulher entende bem dessas coisas de banco, supermercado e cuidado com as gerações futuras”, declarou o mandatário, de acordo com o relato do ministro.

A definição da área total a ser protegida foi tomada por Temer após consulta a diversos mapas do Incra, da Funai e do Instituto Socioambiental. O percentual, garantiu o presidente a auxiliares, foi coincidência. “Mas acabou dando certo, já que ele tem uma conexão espiritual forte com esse número”, disse um deputado próximo.

Na época, Temer foi aconselhado a não compartilhar a ideia com o PMDB. “O Jucá poderia entender errado e querer passar uma régua nisso tudo”, disse uma fonte. “Delimitar onde está e acabou.”

Com a eleição de Donald Trump nos EUA, Temer viu uma oportunidade de pôr o plano em prática. Desde o início, relatórios confidenciais da Abin apontavam que Trump abandonaria o combate às mudanças climáticas e que o Brasil teria uma oportunidade de recuperar o prestígio diplomático perdido caso assumisse a liderança no tema. Ao mesmo tempo, poderia neutralizar a influência crescente da China e da Alemanha nessa agenda. “Seria, por dizer assim, um golpe na Angela Merkel”, disse José Miguez, assessor especial de clima do governo. “O presidente desenvolveu uma certa expertise no assunto.”

Temer chegou a tratar do tema rapidamente no último dia 18, em conversa telefônica com Trump. No dia seguinte, enviou uma carta ao presidente americano com termos polidos, porém firmes. “Words fly, but the writing stays”, pontificou Temer, “à guisa de memento” ao colega americano, como ele mesmo explicou. “Ao recuar do combate às mudanças climáticas, Vossa Excelência deixou um buraco de liderança no mundo”, alertou. “Nós vamos preencher o vosso buraco”, concluiu, priápico, o peemedebista.

Para ser implementado, porém, o decreto precisará superar a resistência da bancada ruralista. A interlocutores, Temer disse que não tem satisfações a dar aos parlamentares do agro. “Todos acham que nós precisamos cuidar da base na Câmara, mas é a Câmara que tem uma base a zelar no Executivo”, sentenciou o presidente. “Isso é cristalino como uma mesóclise.” Sobre Eliseu Padilha, que tem interesses no mercado de terras da Amazônia e se veria prejudicado pelas demarcações, Temer minimizou: “O Primo é um ministro decorativo”.

E Serraglio? Ainda segundo o interlocutor do Palácio do Planalto, ao nomear o novo ministro o presidente já tinha a ideia do novo decreto formatada. “Tratou-se, confessá-lo-ei, de mera manobra diversionista, para acalmar a Frente Parlamentar da Agropecuária”, teria dito Temer. “Todo mundo sabe que o velhinho está conosco.”

Conforme a tradição da data de hoje, este artigo é feito inteiro de pós-verdades e “fatos alternativos”, da primeira à última linha. Mas avisamos ao presidente Temer que, caso queira de fato promover uma onda de demarcações, terá nosso pleno apoio.

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