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Humanidade já ultrapassou 7 de 8 limites planetários

Nova pesquisa liderada por Johan Rockström, cientista pioneiro na quantificação dos limites para a vida na Terra, passa a incluir equidade e justiça ambiental no cálculo

31.05.2023 - Atualizado 05.06.2023 às 21:03 |

DO OC – O aviso é ainda mais contundente: de oito limites para que a vida na Terra seja segura para o planeta e seus habitantes, sete já foram ultrapassados. Um estudo publicado nesta quarta-feira (31/5) na Nature revisou e ampliou a pesquisa paradigmática que, em 2009, havia quantificado pela primeira vez os limites biofísicos do planeta para um desenvolvimento seguro e sadio, introduzindo o conceito de “limites planetários” (PB, na sigla em inglês para Planetary Boundaries).

Considerando critérios como mudanças climáticas, perda de biodiversidade, acidificação dos oceanos, uso de água doce, poluição de vários tipos e mudanças no uso do solo, entre outros, a pesquisa de 14 anos atrás havia listado nove limiares para uma vida equilibrada na Terra e concluído que três deles já haviam sido excedidos — e que os outros seis caminhavam no mesmo sentido, caso medidas urgentes não fossem tomadas. Liderado pelo cientista sueco Johan Rockström, o estudo de 2009 alcançou grande repercussão internacional e chegou a inspirar um documentário lançado em 2021.

Os nove limiares apontados por Rockström e sua equipe, assim como o próprio conceito de limites planetários, seguiram sendo estudados pela comunidade científica desde então. A pesquisa publicada agora, também liderada por Rockström, foi conduzida por um time de 40 estudiosos de todo o mundo nos últimos três anos e realizada no âmbito da Earth Commission, um grupo mundial de cientistas dedicados a investigar os “pontos de não-retorno” causados pela ação humana no planeta.

O novo estudo agrega um elemento ao conceito de limites planetários, incorporando os critérios de equidade e justiça ambiental no cálculo dos limiares. Pela primeira vez, as variáveis foram analisadas e quantificadas conjuntamente, produzindo indicadores que cobrem em conjunto os limites dos sistemas vitais do planeta (como clima, biodiversidade, água e ar) e os impactos à vida humana.

A pesquisa, intitulada “Limites seguros e justos do sistema terrestre”, em tradução livre, concluiu que a janela disponível para salvar o futuro do planeta é ainda mais restrita quando consideradas a equidade e a justiça ambiental. A atualização busca superar uma das fragilidades do estudo anterior e tomar como perspectiva para um desenvolvimento seguro e justo as condições de vida das populações mais vulneráveis — afetadas mais intensamente pelas mudanças no planeta causadas por ação humana.

Ao considerar que todas as pessoas no mundo têm o direito inalienável ao acesso à água, alimentação, energia, saúde e a um meio ambiente saudável, os cientistas demonstraram que a ultrapassagem de alguns dos limites geofisicamente “aceitáveis” (as perturbações das quais a Terra pode se recuperar) já causa danos irreversíveis à vida de populações mais vulneráveis, especialmente no Sul global. O limiar de “segurança” aplicado anteriormente, assim, era mais “frouxo” do que o aceitável quando se considera a equidade no acesso aos recursos naturais e à vida em segurança para todas as populações. 

Aquecimento: 1,5º já é demais

 Através de uma ampla revisão da literatura científica e modelagem, o estudo quantifica os limites seguros e justos do sistema terrestre (ESBs, na sigla em inglês para Earth System Boundaries). As ESBs são agrupadas em oito categorias principais (clima, áreas preservadas/de ecossistema natural, integridade funcional dos ecossistemas, águas superficiais, águas subterrâneas, níveis de nitrogênio e fósforo na água e no solo e poluição por aerossóis), para as quais são estabelecidos percentuais específicos de mudanças aceitáveis.

Com os novos critérios, os limiares seguros e justos para mudanças no sistema terrestre nem sempre coincidem. É o caso das mudanças climáticas: os cientistas concluíram que o aquecimento de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais (meta do Acordo de Paris) pode ser suportado pela Terra (não sem consequências) e relativamente seguro para a população de países desenvolvidos, mas já criaria danos significativos à vida dos mais vulneráveis.

A estimativa apresentada no estudo é que, com essa temperatura, 200 milhões de pessoas sofreriam com inéditos aumentos extremos de temperatura e 500 milhões de pessoas estariam expostas às consequências do aumento do nível do mar em longo prazo. Por isso a barreira “justa” para o aquecimento global foi fixada em 1ºC acima dos níveis pré-industriais, um limite já ultrapassado como mostra a figura abaixo. Hoje, a Terra está 1,1ºC mais quente.

Imagem mostra os oito critérios de análise e os limites quantificados como justos e/ou seguros. Sete já foram ultrapassados. (Fonte: Nature)

 

Os riscos atuais ao futuro da civilização e toda a vida na Terra, segundo os autores, são “colossais”. Em entrevista coletiva, Johan Rockström (atualmente diretor do Instituto de Pesquisas sobre o Impacto Climático de Potsdam, na Alemanha) afirmou que, caso a Terra fosse um paciente em visita ao médico, o diagnóstico seria de um paciente crítico, mas não terminal. Segundo ele, os limites seguros e justos seriam como “medicamentos”, com os quais o paciente precisa passar a viver para curar-se.

Durante a coletiva, os pesquisadores destacaram que o estudo pode servir de guia para metas e ações concretas em direção ao desenvolvimento sustentável nos próximos anos, os mais decisivos para o futuro do planeta. Os cientistas convocaram governos e empresas a agir imediatamente em direção a adoção dos limites, como condição indispensável para a continuidade da vida na Terra. (LEILA SALIM)

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