Protesto na COP28, em Dubai (Foto: Mahmoud Khaled/UNFCCC)

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Recuperação da China faz emissão global crescer 1,1% em 2023

Mundo atinge concentração de CO2 51% maior que pré-industrial, calcula consórcio de cientistas

06.12.2023 - Atualizado 10.12.2023 às 04:08 |

DO OC, EM DUBAI – A ciência é clara: as emissões de gases de efeito estufa deveriam estar declinando quase 8% ao ano desde 2019 se a humanidade quiser ter uma chance de limitar o aquecimento global em 1,5oC. Isso não apenas não aconteceu, como em 2023 elas subiram 1,1%, revelou nesta terça-feira (5) em Dubai o consórcio de cientistas Global Carbon Project. Com 37,5 bilhões de toneladas (sem considerar outros gases e outras fontes), as emissões de CO2 por queima de combustíveis fósseis atingiram mais um recorde histórico.

Um outro consórcio, o Climate Action Tracker, publicou na mesma manhã sua nova estimativa de temperatura global e concluiu que não houve nenhuma mudança no cenário desde a conferência do clima de Glasgow, em 2021: a humanidade segue rumando para um aquecimento global catastrófico de 2,7oC neste século caso as metas atuais de corte de emissão sejam implementadas. Quem achou 2023 suave com sua sucessão de catástrofes pode “jair” se preparando para o que vem por aí.

Poucas horas antes dos dois anúncios, feitos em entrevistas coletivas durante a COP28, saiu a primeira tentativa de resposta política aos avisos da ciência. O rascunho de texto do Balanço Global do Acordo de Paris foi disponibilizado no site da Convenção do Clima, refletindo o que os negociadores dos 197 países presentes no emirado conseguiram coligir a respeito de como caminhar para fechar as lacunas de ambição das metas.

O resultado foi um texto de 24 páginas que é uma verdadeira árvore de Natal: os países penduraram seus desejos e fizeram refletir suas visões, sem censura. A segunda semana de negociações em Dubai, a crucial, tentará podar essa árvore. O segredo é que essa operação de poda permita manter a planta de pé, ou seja, elimine as distrações sem cortar o caule ou arrancar as raízes.

Por enquanto nada disso está garantido. O texto que saiu do chamado Global Stocktake, ou GST, contém várias opções de linguagem para cada parágrafo importante. E uma dessas opções frequentemente é “no text”, ou seja, simplesmente não dizer nada a respeito.

Para citar apenas o exemplo do debate mais acalorado da escaldante Dubai: o parágrafo 35 do texto, parágrafo c, enfim traz a sugestão de linguagem que a sociedade civil e a comunidade científica vêm aguardando: “uma eliminação gradual ordenada e justa dos combustíveis fósseis”. Só que o mesmo parágrafo também tem uma opção de texto (além da opção de não ter texto nenhum), encomenda de Arábia Saudita e outros países petroleiros, que é puro rolando lero: “acelerar os esforços no sentido de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis não-mitigados (unabated) e reduzir rapidamente seu uso de forma a atingir neutralidade em CO2 nos sistemas energéticos no meio do século ou por volta dele”.

Em português claro, isso significa não fazer nada para acabar com a causa da mudança climática, a tríade infernal formada por petróleo, gás fóssil e carvão, e apostar em tecnologias de captura do carbono (CCS) emitido por essas fontes.

A empulhação é desmentida pela matemática. “As emissões de combustíveis fósseis são tão maciças que simplesmente não há como limpá-las com CCS”, disse Julia Pomgranz, pesquisadora da Universidade de Munique, ao apresentar os dados do Global Carbon Project para jornalistas na manhã de terça.

Segundo o GCP, as emissões de carvão, o combustível que deveria estar em franco desaparecimento, foram as mais altas da história em 2023. O petróleo teve um repique de 1,5% de crescimento. E as emissões de gás estão longe de declinar. “Não estamos chegando ao pico ainda”, disseram os pesquisadores. Segundo a ONU, o pico deveria acontecer em 2025 no máximo para manter viva a possibilidade de 1,5oC.

As concentrações de gases de efeito estufa no globo deverão bater mais um recorde quando o ano acabar e terminar em 419 partes por milhão. Isso representa um aumento de 51% em relação à era pré-industrial. O limite de segurança do planeta é 350 partes por milhão.

Nesse cenário, o chamado orçamento de carbono, ou seja, o CO2 que a humanidade ainda pode despejar na atmosfera antes de perder definitivamente a meta do 1,5oC, é exíguo: 275 bilhões de toneladas, algo que, no ritmo atual, será gasto em sete anos. Desde a Revolução Industrial, já emitimos 2,5 trilhões de toneladas de gás carbônico.

O aumento das emissões em 2023 tem nome: China. A maior economia emergente e maior emissora do planeta está em plena recuperação dos lockdowns da Covid e aumentou suas emissões em 4%. A Índia, em 8%. Os países ricos, por sua vez, continuam com emissões em queda, de 5% nos EUA e de 7% na Europa.

Ou seja, nem os europeus, autointitulados heróis climáticos do globo, estão fazendo suas emissões caírem na proporção necessária. (CLAUDIO ANGELO)

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